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São Paulo, SP

Corredora Zen :-)

Corredora Zen :-)

PERFIL

Histórias de corrida, yoga, alimentação, produtos e provas. Para mim, corrida é um tipo de meditação e escrever um tipo de diversão. Muito prazer, eu sou a Natalia Yudenitsch, mas pode me chamar de Nat. Se quiser, fala comigo no corredorazen@gmail.com

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Quem tem lesão põe o dedo aqui! - parte I


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 10/05/12 às 18:24 na(s) categoria(s) dicas, historias de corrida, saude
Não, eu não estou lesionada. Dei uma BREVE (juro que breve, viu Samuel-amigo-da-amiga-Adriana) sumida porque estou num momento de mudanças --para melhor, CLARO, na verdade para mais perto de vocês, da corrida, do yoga e da alimentação. Mas esse momento changes implicou em eu ficar meio computerless por um tempo, anotando pensamentos para o blog em arcaicos caderninhos de (susto) papel. Então vamos a um tema sempre presente: se você for num treino de corrida aleatório, digamos no Ibirapuera e gritar, igual naquela brincadeira de quando eu era criança (no original era "quem quer brincar de .... põe o dedo aqui") só que mudando para "quem tem alguma lesão põe o dedo aqui", não vai ter espaço para tanto dedo. Não bom, certo?

O porque disso não é tão simples quanto muitos artigos a respeito parecem acreditar. Mas um dos top 3 motivos é o fator Entusiasmo Excessivo, que é aquele que a pessoa que começa a correr tem. Começa, acha legal, os tempos vão melhorando, o ponteiro da balança dá uma queda, as distâncias vão ficando mais fáceis e pronto, você sente que, como naquele livro, nasceu para correr e não há distância que você não consiga cobrir com um pouco de treino. O que, em parte, é verdade --eu acredito piamente que nascemos para correr e que com treino adequado a gente realmente consegue fazer qualquer prova. MAS, todavia, contudo, entretanto, não dá para subestimar um negócio chamado base.

Base significa basicamente quilômetros acumulados. Experiência. Ter passado por vários tipos de treinos, ter treinado em vários tipos de terrenos, ter enfrentados vários perrengues em provas. Ter colocado o corpo a prova e aprendido como cada um de nós funciona frente a coisas como meses de treino intenso, períodos de descanso, foco em velocidade, foco em endurance, provas em trilhas e montanhas, provas com várias modalidades etc. E construir essa base, óbvio, exige tempo.

O que acontece é que não é muita gente que tem paciência de dar este tempo. E cansaço é um bicho ardiloso e cumulativo. Você aguenta fazer uma maratona e fica ÓTEMO depois. Na sequencia faz uma meia, descansa 2 semanas e já começa a treinar para uma ultra. Faz, sobrevive e tem certeza de que tá pronto para qualquer coisa.

E é aí que aparece a diferença entre quem tem base e quem não tem. Quem tem uma base sólida, que vem de anos e anos, provavelmente está mesmo pronto para a próxima. Já sabe o quanto tem que descansar, quanto tempo antes precisa começar a treinar, como se recuperar e se realmente está OK. Quando se forma uma base boa, o corpo ASSIMILA os treinos. Ou seja, você morre mas ressuscita rápido e não fica com sequelas pos mortem.

Quem não tem base ainda, normalmente é pego de surpresa por uma lesão. Tudo ia muito bem, os tempos de prova ótimos, a corrida rendendo, a pessoa entusiasmada estilo cheerleader da corrida, o volume aumentando sem dor aparente e de repente... tchã! aquele momento windows, com o barulhinho que faz quando ferrou tudo e você perdeu todo seu trabalho. Lesão!

E nunca essa lesão vem durante uma prova. Normalmente vem 1 ou 2 meses depois (ou mais) e de formas bizarras ou levemente ridículas. Você pisa errado no degrau da banca de jornal. Tropeça andando com o cachorro no parque. Acorda num domingo sem treino e o quadril dói. Tira férias e de repente, nas Bahamas, não consegue por o pé no chão.

Parece azar. Mas não é. Claro que acidentes acontecem e nem sempre tem uma explicação ligada a seus treinos. Emalguns casos a pessoa foi amaldiçoada pelos deuses mesmo. Mas na maior parte das vezes, é o tal cansaço acumulado. Tipo, você talvez não tropeçasse se não estivesse andando mais arrastado e mais pesado devido ao cansaço. Você talvez tropicasse no degrau do mesmo jeito, mas se o corpo não estivesse com exaustão acumulada seria uma dorzinha de torção leve no pé ao invés de uma fratura. Porque a verdade é que um corpo que está cansado é um corpo com reflexos piores, mais distraído, com ossos, ligamentos e tendões mais frágeis do que normalmente seriam.

Então, se você não sente dor alguma mas repentinamente começou a tropeçar muito, anda caindo no parque em trotinhos bestas, as coisas estão escorregando magicamente das suas mãos, a preguiça de treinar tem batido mais forte do que nunca, pára para pensar. Porque não é uma maré de azar e você não precisa se benzer --precisa é descansar. Quero dizer, pode se benzer também se quiser né? Mas o que vai realmente te ajudar é diminuir um pouco o pace.

Não precisa parar. Aliás, não é para parar, não acredito em parar (mas isso é tema para outro post). Mas pense em aumentar o tempo entre uma prova e outra, em treinar outras coisas também para mudar um pouco a musculatura mais exigida, em descansar DE VERDADE no seu dia off. Continue a ir aos treinos normalmente mas volte seu foco mais para a bike, o yoga, a piscina. Certeza que vai te deixar melhor para a corrida e talvez ajude a prevenir uma lesão que estava se formando silenciosa --nem toda lesão vem com milhões de avisos óbvios antes. Ou melhor, os avisos sempre existem, mas podem ser desse jeito aí --mascarados de uma preguiça que não é bem preguiça, de um estado meio aéreo, mundo da lua, de esquecimentos com coisas triviais que se acumulam e que você antes não tinha, de fomes ou faltas de fomes estranhas e novas.

Que o corpo fala é um clichê antigo, meu ponto é: ouça ANTES de ele ter que chegar a uma lesão para você entender. 


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Cruce de los Andes - Dia 3 - Alguém tem uma papete?


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 28/02/12 às 18:04 na(s) categoria(s) dicas, historias de corrida, provas
O 3º dia já começou bem: sobrevivemos ao crime da mala, ao frio pós-lago, ao cansaço e a 2 dias anteriores somando 90K. Então se você tinha chegado até ali, já estava no lucro. Como as malas chegaram em algum momento em que eu estava dormindo (ouvi falar 4h ou 5h da matina), quando saí do modo sardinha da barraca, minha querida malinha vermelha a-prova-de-tudo estava lá. Com roupas do meu tamanho, comidinhas para a prova e tenis seco. Felicidade é uma coisa tão simples né?

Pois eu estava lá me trocando para o último dia quando ouço uma voz perguntando: "alguém tem uma papete??" Abri um sorriso gigante ali sozinha. Porque era a voz da Déia, aquela que ia parar e voltar para San Martin por causa das unhas detonadas. "Ela vai", constatei. Porque se ela estava pedindo uma papete, é porque já não estava mais questionando se ia ou não correr e sim COMO operacionalizar a coisa. Simples assim.

Claro que ninguém tinha uma papete. Ela acabou dando uma geral rápida com o médico ali mesmo no ambulatório --na verdade ela só precisava de uma opinião profissional que garantisse que o dedo NÃO ia cair, porque dor... bom, a dor já virou sua amiga e amiga você não evita, você abraça.

O dia estava lindo, super sol, super céu azul. Nos despedimos pela última vez de nossas malas viajantes, tomamos café e fomos todos alegres e felizes para a largada. Porque dia 3 é sempre uma alegria. Mesmo com todo mundo acabado, milhões de faixas kinesio colorindo joelhos, tornozelos e pernas da galera, é o final --e um final com METADE da distância que já estava virando praxe.

Nesse último dia, inovaram a largada. Primeiro saíram as duplas masculinas, depois mixtas e por último as femininas. Nosso grupo, todo mundo sorridente, destruído e tirando muitas fotitos.

De repente passo pela Cris e sua dupla Rosália. Último dia, que seria o dia da definição - nossa dupla brasileira estava numa disputa acirrada com as argentinas, e o 3º seria o dia-do-vamos-ver. Na hora da preparação da largada feminina, as rivais estavam lá, no gargarejo, se preparando para sair o mais na frente impossível. E cadê Cris? Pois a nossa dupla estava sentadinha na areia lá do outro lado, olhando calmamente a aglomeração no gate. Desconforto das argentinas, que olhavam toda hora para as brasileiras, tipo e aí, vocês não vão vir aqui? E elas lá, na maior tranquilidade.

Deu a largada. As argentinas partiram, sem saber exatamente o que estava acontecendo. E nossa dupla estrategista largou tranquilamente por último, atrás de todos --afinal a estrada seria bem larga, sem problemas para ultrapassagens e o tempo se conta pelo chip né?

O resultado foi uma das coisas que mais gosto em provas --ver o povo que disputa pódio correr (pena que não deu para ver outras duplas amigas voadoras que largaram na minha frente). Porque saindo lá de trás elas foram fritando o chão, passando todas, até que passaram a dupla rival. Como eu queria ter visto a cara delas quando nossas brasileiras passaram por elas vindas láááá de trás. E a Cris, como sempre, sem faltar um incentivo para alunos e amigos no caminho, mesmo naquele momento atleta-disputando-o-1º-lugar. Pessoas, eu não sei se isso é o normal, porque não tenho experiência com outros treinadores. Se não for, deveria. Mas eu me emociono todas as vezes.

Eu, neste dia, estava com MUITA vontade de correr. A perspectiva de correr "só" 21K era o máximo. O dia estava lindo. Então comecei a correr. Fui encontrando pessoas amigas --muitas das quais desconhecidas mas mesmo assim amigas. Quem faz o Cruce junto pode não saber o nome direito, mas já é quase amigo de infância.

Passei muita gente animada, rindo, feliz. Fui passada por outro tanto de gente idem. Vi as Blondies passarem lindas, loiras e irradiando alto astral. Vi a Su feliz, correndo bonito de dar gosto. Vi Betinho e Pedrinho sempre no maior bom humor, com o perrengue que fosse.

Aí vi a Déia & Ari e fui junto com elas. A dupla generosamente se abriu para um trio, com direito a risadas, conversas na fila da aduana (sim tinha que fazer a aduana para voltar a Argentina), comidinhas compartilhadas. Corremos juntas quase que a prova inteira, comigo abrindo uns segundos nas descidas por um motivo muito simples: eu ainda estava aguentando correr soltando na descida. Se doía? Muito. Mas eu conheço meu corpo. E lembra a história de virar amiga da dor? Pois é. Ela deixa de ser um bicho-papão paralisante e vira um desconforto apenas.

Os 21K, apesar das subidas, da dureza das descidas, passaram voando (os 21K, não eu). E tudo o que eu queria era terminar. Aí passou um riozinho na altura do quadril (a última surpresita da prova) e pronto! Acabou! Era até difícil de acreditar. Mas acabou MESMO?? Mas era só ver a Re pulando na margem e gritando parabéns para saber que sim, tinha terminado MESMO. Essa sensação de fim-de-Cruce é O MÁXIMO.

Abracei a dupla que nesse momento era trio e comemoramos as 3, gritando, pulando (tá, essa parte do pulando é mais figurativa), se abraçando, rindo --e, claro, tirando fotos. E esperando outras duplas amigas para recomeçar o processo.

Agora eu preciso desmascarar uma coisa nesse Cruce: o gate fake. Porque era assim: você atravessava o rio e pronto, chegava, uma tchica pegava seu nome e nº, acabou. Aí você ficava na fila, que era de mais ou menos 1h30, para um barquinho te levar para a outra margem. Aí você caminhava tranquilamente até que chegava num descampado e via uma coisa bizarra: o gate de chegada. Porque vamos combinar: você chegou há 1h30 atrás. Já tirou a mochila, esfriou, já conversou, comemorou, sentiu frio, calor, já está sonhando com a banheira do hotel e um jantar maravilhoso.

Aí alguém grita para você correr para passar pela chegada. Oi? Como assim por exemplo? Eu já cheguei faz tempo moço. Então vou ter que melar o esquema e contar que todas aquelas fotos do povo atravessando correndo a chegada final na verdade foi uma coisa meio posada. Porque os fotógrafos esperavam você chegar a uns 15 passos do portão, começar a correr para clicar. Achei estranho e desnecessário. Quero dizer, fazer pose de chegada no gate acho legal! Eu fiz questão de tirar foto também, o registro quase obrigatório da chegada "oficial". Mas essa corridinha fake 1h30 depois? Fala sério. Por isso nosso trio tirou foto oficial, sorriu e fez pose, mas não fez a corridinha marmelada.



E foi assim que terminou o último dia do Cruce, com dia lindo, corpo cansaaaaaado, dores everywhere, alma leve e cara feliz. E a papete? A papete para mim virou o símbolo desse dia, porque ilustra perfeitamente o espírito da prova: o momento em que você tem uma virada de atitude, você para de se questionar se vai ou não conseguir e começa a pensar em como fazer, porque que você vai, ah, isso vai.

Para fechar o Relato Cruce 2012:


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Cruce de los Andes - Dia 2 - O crime da mala


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 22/02/12 às 17:00 na(s) categoria(s) dicas, historias de corrida, provas
Dia 2 do Cruce, já aprendi, é o dia-do-vamos-ver. Porque é o dia em que os imprevistos e apuros acontecem. No Cruce 2010 foi o Dia do Vale da M..... No Cruce 2012, foi o Dia do Crime da Mala.

Mas estou me adiantando. Primeiro tem que voltar ao final do Dia 1, pós-vulcão. Depois da nieve fofa, do cascalho rolante, da subida sem fim, da descida super íngreme e da ponte que não chegava, o mistério era saber como é que a gente ia enfrentar o 2º dia, chamado de "más duro" no site da organização. Más duro que o vulcão? Help.

Para aumentar o clima de suspense, durante a noite choveu. Bastante. Eu tive visões do famigerado dia da chuva do Cruce 2010, com rios subindo, pontes caindo e acampamentos em lugares pavimentados de cocô de vaca. Mas foi só um flashback do terror, porque no amanhecer o dia estava RADIANTE. Apesar da chuva e da barraca smurf ficando com as paredes molhadas (não de chuva e mesmo esticando a 2ª camada ao máximo), dormi incrivelmente bem. Ah, colchãozinho inflável, você é um trambolho mas eu te amo mesmo assim.

Por conta da tchuva, a largada foi adiada para tipo 9h30. Ou seja, deu tempo de acordar, se alongar, arrumar a mala e empilhá-la na praia, tomar café e se preparar para andar os mesmos 2K da largada, porque o início do percurso ia ser o mesmo do Dia 1 no comecinho, só que obviamente logo mais ia para o outro lado, tipo fugindo do vulcão.

A expectativa de correr depois dos 43K do dia anterior é de que seja algo bem sofrido, afinal o corpo todo te lembra do Dia 1. Mas aí você larga e algo acontece. Deve ter uma explicação lógica e científica para isso, mas pode chamar de mágica que dá na mesma. O fato é que de repente tudo se encaixa. Claro que subir e fazer força continua sendo duro, claro que os músculos, tendões e ligamentos ainda lembram do esforço do dia anterior. Mas nada disso parece importar ou fazer muita diferença.

É como se o corpo falasse "ok, entendi, você sua maluca vai querer correr + de 40K todos os dias agora né? então tá, vamos com tudo". E o corpo simplesmente SE ADAPTA. Com "se adapta" não quero dizer que você vai se arrastando, sobrevivendo. Significa que o cansaço vai diminuindo, você vai se aquecendo, vai engrenando e CRESCENDO na prova, algo que parecia impossível até então.

É por isso que você não deve entrar em pânico quando estiver treinando para uma prova dessas e quebrar no 1º treino de piramba forte. Quando se sentir acabado e quebrado depois de fazer um treino de 3h e pensar "se estou assim depois de só 3h no 1º dia, como vai ser no Cruce?". DELETA ESSE PENSAMENTO. NA HORA! Porque a verdade, como a Cris sempre repete, é que essa conta não fecha. Vamos lembrar aquele mantra novamente: treino é treino, prova é prova. Você pode morrer no treino, achar que não aguenta dar nem mais um passo --mas num Cruce é diferente. Acredite. Você não consegue simular o que acontece num Cruce num treino.

Porque não é só físico. Na verdade, essa parte é bem pouco física. O físico, se você seguiu sua planilha e fez todos os treinos direitinho, está garantido. Mesmo que os treinos tenham sido duros e você tenha dúvidas. Mas essa força que surge numa prova dessas vem de algum outro lugar. Se a cabeça está boa, se você não entrou em pânico ou começou a ter pensamentos circulares sobre desistir, o corpo aguenta.

E olha que o Dia 2 teve subida. Segundo ouvimos, teria uns 15K ou 20K de subida, mais uns 15K de descida. Então o foco era tentar subir o mais rápido possível na expectativa de chegar logo no topo da montanha e começar a descer.

Neste dia, minha prova solo não foi tão solo assim: o Aloysio, da querida-dupla-amiga Lu + Aloysio foi companheirão de quase 100% do percurso. Porque o casal tinha se deparado com uma questão peculiar: depois do vulcão, um sentia dor se andasse e o outro sentia dor se corresse. E agora Batman? Sensatos que só, decidiram que só neste dia um correria, o outro andaria e se encontrariam no final --vamos deixar claro que não por uma questão de classificação, que eles não estavam nem aí com isso, mas para garantir um sofrimento menor aos dois.

A companhia foi ótima, uma conversinha nas horas mais terríveis da subida ajuda muito, pelo menos a mim. E a subida continuava, estradinha no meio do verde, árvores de tronco esbranquiçado nas margens, mar de montanhas no horizonte. E o topo que não chegava? Cada hora a gente pensava: é ali! Mas nada, tome mais uma curva e uma subida.

Até que finalmente chegou, segundo as pessoas com GPS, no KM 30. UAU! Já km30?? A animação foi geral, afinal se o percurso tinha 40K agora era só descer correndo até a chegada, sensacional! Essa idéia foi como uma injeção de adrenalina na galera. Com sorriso nos lábios, falamos "e aí, vamos acelerar??".

A partir daí foi uma endorfinada só, despencando montanha abaixo. Aloysio estava impossível, protagonizando ultrapassagens perigosas em alta velocidade. Eu me diverti MUITO. Me senti criança, sabe quando o legal é você ir MUITO RÁPIDO (mesmo que a velocidade real não seja tanta assim mas a sensação sim)?

Mas aí eu ia olhando no reloginho e contando, 3K, 4K, 5K, 8K, 10K --agora tá acabando né? Sprint final, certo? Só que eu corria e os quilômetros continuavam: 11K e descendo, 12K!! E de repente parou de descer. Eu olhando ansiosa, cadê o gate de chegada?? E aí de repente vejo umas pedras. Costão cercado de água. Einh?

Essa era a surpresita que a organização guardou para o 2º dia. Senão ia ficar muito fácil né? No final o percurso somou 47K. E 2K finais de pedras e água para atravessar. Daquele tipo que você tem que ir se segurando (e não daquele que você simplesmente anda ou corre por cima). Ali eu tive um momento-pastelão, escorreguei e caí na água. Até aí beleza, rasinho, o problema é o detalhe: com a máquina fotográfica fora da proteção. Não, não era a prova d´água. Sim, devia estar na proteção. Por que não estava? Sei lá, eu estava lesada, achando que já tinha acabado e deixei a máquina a mão. Disponível para um breve mergulho, sabe assim? Por isso, a quantidade de fotos desse dia ficou, digamos assim, limitada. Assim como as do dia seguinte. Ah, e a máquina voltou a vida (em São Paulo, claro).

Mas voltando, essa travessia demorou PARA SEMPRE. Olha, eu sou bem ruim de andar em pedras, não tenho essa experiência, sou lenta, mas o povo na minha frente ganhou o Oscar da Lerdeza. Deu até um nervoso. Era meio passo, parada, pausa para gritar ou xingar hijo de puuuuuuuu......., parar, receber incentivo de outros tchicos, mais um passo... Gente, eu sou uma pessoa calma. Zen. Mas ali estava demais. E se uns poucos seres não passavam, ninguém passava. Porque a água estava subindo --aliás, pessoas inteligentes leitoras deste blog, como um lago pode ter marés (ou o equivalente de)? Porque o nível de água estava claramente subindo, tanto que as pessoas que chegaram umas horas depois não puderam passar porque estava acima do peito.

Foi desesperador, porque dava para ver a chegada ali do lado mas não chegava. E o sol indo embora. E você ali, preso na câmera lenta. O resultado foi que cruzei a linha de chegada com FRIO. Frio daqueles de congelar pensamento, porque o sol já tinha saído do acampamento e todas as roupas estavam encharcadas e geladas no corpo.



Poxa, para de reclamar e troca de roupa então né? --vocês devem estar dizendo. Pois é. Só que tinha um probleminha. A mala não tinha chegado. Oi? Como assim por exemplo? É, quase nenhuma mala tinha chegado ao acampamento 2. O Crime da Mala. Porque a balsa, aquele balsão imenso que nos trouxe até lá, teve um problema. Pelo que entendi começou a vazar combustível. Resumindo, estava fora de combate. Então sei lá, só umas 20 das 1.500 malas tinham chegado. E a quantidade de pessoas molhadas batendo dentes aumentava.

Aliás, se engana quem achou (como ouvi gente falando na raiva do momento) que só elite tinha as malas na mão. Assim que eu cheguei vi a Cris, que vamos combinar está nesse grupo (até porque ganhou este Cruce) e tinha chegado HORAS antes de mim e nadado nesse trecho das pedras, de shorts molhado, só de meia e com cada pé dentro de um pacote de bolacha para esquentar um pouco. Pena que minha máquina estava fora de combate, porque teria dado uma foto ÓTEMA.

Aí começou o que sempre acontece nessas horas. Indignação, ultraje, inconformismo, ódio no coração. Mas a organização não tinha um plano B? Bom, tinha. O plano B era ir trazendo as malas de carro, camionete, que foi o que eles fizeram. O problema é que cada leva demorava horas e chegavam tipo 30 malas por vez, que era o que cabia em cada veículo.

No acampamento, já estava rolando um motim. A enfermaria estava enchendo de gente com hipotermia ou quase. Para uma parte do povo, nem a barraca tinha chegado. A organização se pronunciou --e aí, mesmo que o plano B deveria ter sido melhor, tenho que dizer que foi corajoso botar a cara para bater no meio do povo irritadíssimo--e disse que as malas continuariam chegando, e que este processo terminaria por volta das 4h ou 5h da manhã e que eles levariam as pessoas que assim o quisessem de volta para San Martin logo mais.

Este foi um momento crítico. Porque aí, depende muito de como você encara a prova. Se encarar como sou-cliente-paguei-se-vira-nao-vou-esperar-mala-nenhuma, a probabilidade de voltar para San Martin é grande. Se você estiver na enfermaria, também é o caso de pensar e analisar seriamente se você está OK para continuar a prova. Para quem chegou mais tarde --e não pegou o trecho das pedras porque a partir de algum momento a organização cortou essa parte-- era uma questão de pesar a exaustão, frio, o saco cheio de esperar o transporte no escuro por horas.

Eu pessoalmente já incorporei que provas como o Cruce tem perrengues fora do percurso da prova. Sempre. Umas 1.500 pessoas na montanha, a probabilidade de rolarem coisas assim, ou como a queda da ponte por causa da chuva em 2010, é grande. Eu acho que o acampamento faz parte do se por a prova. A organização erra? Sempre erra em algo. Sempre dava para ter feito melhor, planejado diferente. Tem que reclamar? Tem! Mas vale desistir por causa desses perrengues? Eu acho que não.

Porque o frio passa. A raiva passa. A fome passa. O cansaço passa. Desistir não. A não ser que você esteja tomando uma decisão CONSCIENTE, o que significa que você pode lamentar e ficar triste depois, mas não vai se arrepender.

Foi por ter essa sabedoria em nosso grupo que vivemos uma cena curiosa. A Déia, cujo maior temor era o joelho não segurar a onda, estava com algo muito mais urgente para se preocupar: a unha. Porque ela conseguiu detonar as 2 unhas dos 2 pés --você acha que ela fez força no Dia 1? E não era só uma questão de dor, as unhas estavam bem bonitas, naquele tom roxo-esvereado-o-dedo-vai-cair, meio soltas, lindas mesmo. Como ela estava tendo dificuldades em sequer PISAR no chão, tinha decidido que para ela tinha dado, ela ia voltar para San Martin e PRONTO. Aí ela falava isso para Cris e Ari, repetia e elas simplesmente ignoravam. "Tá, vamos dormir e amanhã você vê", foi a única coisa que a dupla Ari concedeu de atenção ao dedo. Como ninguém parecia dar bola para a possível desistência e queda do dedo, a Déia resolveu fazer uma enquete sobre o real estado do machucado. Então pelas próximas horas, todo mundou ouviu a seguinte pergunta: "Olha meu dedo?" seguido de "E aí, você acha que dá???". Como ninguém respondeu diretamente e a maioria desviou o olhar daquela beleza, não teve outro jeito: ela teve que ir dormir.

Porque teve um outro lado nesse caso Crime da Mala Que Não chegou: a união das pessoas. Sério, a gente lê textos sobre solidariedade, companheirismo, compaixão, ajuda ao próximo --mas ver tudo isso acontecendo do seu lado é emocionante e muito legal, sem pieguismo algum.

Porque as poucas pessoas que eram do time dos com-mala, sequer pararam para pensar. Paulinho em poucos minutos já basicamente não tinha mais mala, porque tinha emprestado tudo o que tinha para a galera: meias, calças, camiseta, o que tivesse. Teve a dupla Bob-pai & Bob-filho, ou Los Consiglios, que mesmo batendo dentes de frio, assim que chegou sua mala, já foram entregando tudo para os molhados. Vivis ainda tinha ânimo de perguntar para as pessoas como era a mala de cada um e procurar para os amigos. É claro que você tinha que fazer a sua parte, ou seja, sair andando pelo acampamento amigo avisando que era sem-mala e se alguém tinha algo para emprestar.

No final das contas eu fiquei com calça 1ª pele da Cris (que ela nem coneguiu estrear, tirou da caixa e me deu sem pestanejar), calça impermeável dos Consiglios (que devem ter mais ou menos 1,90m de altura contra meus 1,60m), meia e tênis da Su, fleece da Marri e impermeável meu mesmo, que milagrosamente não tinha molhado no topo da mochila.

Como sem-mala significava sem saco de dormir, ainda tinha a questão do pernoite. A solução veio sem pensar duas vezes da Vivi, Cris, Déia, Ari e cia: vamos colocar os sem-mala nas barracas dos com-mala. Foi assim que eu descobri como as sardinhas em lata se sentem. Aliás, eu a dupla-amiga que me acolheu igual coração de mãe, Ari & Déia. Porque elas abriram mão de uma noite mais confortável para brincar de enlatado comigo, cedendo ainda um pedaço de cada saco de dormir para eu me cobrir (claro que todas estávamos lesadas e esquecemos da existência do bivac de emergência).

Como estávamos deitadas duas para um lado e eu no meio para outro, se mexer era impossível --além do medo de acertar no tal dedo ultra-sensível, do lado da minha cabeça, e a pessoa gritar de dor ou me chutar. O problema é que, mesmo coberto, meu pé continuava bloco de gelo. Simplesmente não esquentava, acho que por conta do friodo lago. Mas eu não ia acordar as meninas para reclamar né? Só que a Ari sacou e perguntou se estava tudo bem. Ótimo, eu disse, só pé congelado. E aí ela fez uma coisa simples e mágica: botou a mão no meu pé. Gente, aquela mão quentinha fez o que os casacos ultratecnológicos não foram capazes de fazer: fez tudo ficar bem, meu pé esquentar e ainda passar uma energia amiga que me fez sentir em casa e dormir.

Dormimos super bem? Não né. Mas conseguimos rir da situação. Ficamos todos mais amigos. Superamos juntos mais um perrengue e somamos mais histórias para contar. E o mais importante: acordamos prontos para o 3º e último dia.
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Cruce de los Andes - Dia 1 - O vulcão


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 16/02/12 às 19:06 na(s) categoria(s) dicas, historias de corrida, provas
Prova de grande porte tem muito mais obstáculos do que simplesmente o percurso. O primeiro deles foi um imprevisto realmente imprevisível: minha querida dupla, Ceci, teve que parar. Calma pessoas, ela está ÓTEMA, tá TUDO BEM, mas a coisa responsável a fazer naquele momento era essa. E ela fez, o que, acreditem, não foi fácil. Porque nós éramos dupla no Cruce 2010, ou seja, pessoas que não desistem nem com temporais e acampamentos no Vale da M.... Imagina que a pessoa treinou por meses, comprou isso e aquilo para a prova, arrumou malas, fez exames, escolheu hotéis, planejou comidinhas e até já sabia qual a foto que queria tirar no vulcão. Dizer não para isso não é fácil.

A sensação de deixar a sua dupla na mão, mesmo que não intencionalmente, é dureza --eu sei, porque eu estive no lugar dela ano passado, quando não pude ir e deixei a minha então dupla na mão. Mas dupla é dupla, mesmo quando uma das partes fica impossibilitada. E que mesmo não podendo seguir a prova ficou mandando recomendações, bilhetinhos fofos, querendo saber todos os detalhes, fotos e torcendo muito a cada atualização do site. No fundo, ela estava ali do lado, só não dava para ver.

Na véspera, o acampamento estava acesasso, todo mundo ligado no 220 na expectativa do Dia 1. Esse ano a noite de sono no acampamento teve um improve considerável com um item baratex: o colchão inflável. Não era obrigatório, mas era "fortemente sugerido" pela organização. Como eles que montavam e desmontavam as barracas esse ano, um mimo inimaginável, deixaram subentendido que montariam sem super se preocupar em aplainar a superfície do solo. Vulgo leve seu colchão inflável ou corra o risco de descansar em cima de uma raiz ou várias pedrinhas. Por menos de R$30 foi uma aquisição da qual não me arrependi, mesmo sendo um trambolho que ocupava um lugar excessivo na mala. Ah sim, se for levar o seu no próximo Cruce, não esqueça de combinar com os amigos quem vai levar a bomba para encher os danados!

Como o nosso grupo era bem grande (devia ter umas 30 ou 40 pessoas), tinha pelo menos umas 5 bombas --que são mais um trambolho absolutamente desconfortável de fazer caber na mala. Mas precisa né? Então tira no jóquei-pô quem vai levar o negócio. Aliás, essa mala merce um comentário a parte.

Com essa história de aduana pra cá e para lá, esse ano não teve os famosos conteiners, era cada um com sua malitcha. Ou seja, você precisava de uma mala que fosse de preferência impermeável (afinal ela ia rolar de um caminhão para outro, ser arremessada junto com outras 1.500 malas, ficar no sereno e talvez tomar chuva) e que você mesmo conseguisse carregar. Além disso devia caber na mala:
  • suas roupas de acampamento, que se você for sábio vão incluir calça de fleece, impermeável fofinho, croc ou similar e afins
  • suas roupas de prova (incluindo 2 pares de tênis)
  • as comidas e suplementos para durante e pós prova (gel, R4, damascos, sandubinhas, castanhas e tudo o mais que não ficou retido na aduana)
  • o saco de dormir (de preferência -10° C e beeeeem pequeno)
  • o colchão inflável (+ a bomba se vc perdeu no palitinho)
  • seus objetos de higiene pessoal (do babywhipes e protetor solar ao hipoglós)
  • toalha
  • sacos de lixo (não pergunta pra quê, simplesmente leve, é tipo o buff, tem 1001 utilidades)
  • o que mais você costuma levar nessas provas
Você fica expert em arrumar malas! Posso até fazer disso uma profissão, se algum de vocês quiser me contratar. Porque nesse Cruce deu para aprender muito --quem viu a barraca e a mochila eficiente menos-é-mais da Cris sabe do que estou falando, a casinha smurf dela tinha até tapetinho (feito de sacos) na entrada, só faltava o vasinho de flores na janela, um luxo só.

O importante é que tudo isso esteja organizado de forma que você consiga pegar suas roupas de cada dia da prova rapidamente e preparar a mochila da corrida sem traumas. Sem esquecer que na mochila também tem um monte de itens obrigatórios tipo kit de primeiros socorros, bivac, cobertor de emergencia, lanterna etc.

Só aí você pode largar em paz. E lá fomos nós, andando ansiosos por cerca de 2K até chegar na largada oficial. De repente FOI. Começou o Cruce!! Começou na subida, lógico. Morro acima e subindo. Hora de se desligar de qualquer outra coisa que não o momento. Só existe você, o visual, as passadas, as pessoas ao seu redor focadas na mesma coisa, só existe o Cruce. E uma meta, que vai crescendo no seu horizonte: El Mocho, o vulcão.

Nessa longa subida rumo aos 2.260m de altitude do volcán, aconteceu um milagre: eu aprendi a usar o trekking pole (ou bastão de caminhada). Quem lembra dos relatos do Cruce anterior, sabe que eu tinha me dado MUITO mal com este apetrecho tão moderno. Que ele tinha me atrapalhado, irritado e que eu simplesmente não sabia usar. Não sabia, no passado. Porque agora somos grandes amigos. Tudo graças a um toque do Zé, que mostrou como prender e apoiar a mão na alça dos bastões. Parece besta mas fez A DIferença, tanta que nem importa as horas que passamos desfazendo os nós que ele deu no fio do trekking pole na tentativa de deixá-lo mais justinho e eficiente, tipo terapia ocupacional no acampamento.

No caminho fui encontrando várias duplas amigas, ou seja, fui solo-porém-bem-acompanhada. Tipo festinha onde você vai passando e trocando idéias rápidas com a pessoa entre um canapé e outro, conversinha com Betinho + Pedrinho, risadas com Vivi + Carlota, incentivos com a Santuzza + Rafinha. E a cada passo, o topo nevado ia ficando mas visível e mais próximo.

Em algum momento, o sol quente e o calor foram dando lugar a um ventinho. O solo foi virando areia vulcânica negra, até que passamos por uma placa que dizia: Centro de Nieve. Ueba, NIEVE! A partir dali a subida já levava claramente ao topo do El Mocho, que era onde tinha umas formiguinhas minúsculas se movendo --ou seja, ainda tem muuuuito chão até você virar uma delas.

Ali, logo antes de começar a tal da nieve, rolou um rápido pit stop para acrescentar camadas de roupas a minha pessoa. Se eu conseguisse correr feito Cris, Paulinho, Hadi, Lucas & mais um monte de amigos muito mais fortes que eu, provavelmente não ia precisar de tudo isso. Mas, todavia, contudo, entretanto, o vento tava dureza e afinal de contas a placa dizia NIEVE. Aí rolou um fleece bem fininho e um corta vento eficiente, além de luvitchas. Foi perfeito, usei TUDO o que tinha levado na mochilinha --muito menor e mais eficiente do que a que usei em 2012, fiquei super orgulhosa de mim mezzzzz.



Nesse ponto o visual era de outro mundo. Um mar de montanhas atrás, o pico nevado ali na sua frente, céu azulzíssimo, sol, frio, vento. E não é que um cara aponta no horizonte do meu lado e solta um "Olhá lá, O LANIN!!". Cadê a Ari para ouvir essa? RI tanto sozinha ali que o tchico achou que a alitutde tinha me afetado seriamente. O começo do trecho de neve foi emocionante, era muito surreal estar ali correndo. Mas todo esse momento-mágico-de-sessão-da-tarde acabou no segundo em que vi o trecho que levava ao topo mesmo, ao topo de verdade, ao topo final do vulcão. Pessoas, era uma rampa beeeeem vertical. Com neve fofa. Curtinha curtinha, mas vou repetir: beeeeem vertical + neve fofa. Ou seja, escorregava. E dava uma sensação de que se você olhasse para cima caía de costas e rolava até o acampamento lá no pé da montanha. Você pisava e dava uma afundada e uma escorregada para trás. Para mim, a solução foi usar meus novos melhores amigos trekking pools e tentar pisar nas pegadas de gente mais pesada que eu, que escorrega menos.

Depois de uma eternidade, finalmente ele, O Pico Do Vulcão. Com um p...... vento, frio pra dedéu e todo mundo tirando foto sorridente, incluindo eu. Acho que o frio congela a parte do cérebro que identifica que você está numa situação não exatamente tranquila e confortável e só fica a parte que fala SUBIIII!!! CHEGUEI NO TOPOOOO!! (assim mesmo, com vários pontos de exclamação).

Aí você pensa, bem, eu sou demais, consegui, subi, cheguei no topo. Agora vamos embora né? Que nada. Agora você tem que dar a volta no topo. Que tinha uns 9K, 100% nieve, vento de levar Dorothy de volta pro Kansas e um visual mais incrível ainda. E o que você, que não está correndo para pegar pódio faz nessa situação de, vamos combinar, desconforto? Para e tira fotitos, lógico!

Assim a vuelta no El Mocho demorou pra sempre. Não acabava nunca mais e, apesar de ser a mais bela, foi a mais dura de fazer solo. Nessa hora dupla é tudo. Porque o pulmão aperta, dá uns sonos, a volta fica looooonga. Mas como boa Corredora Zen fui seguindo. Lembrei de umas músicas. Lembrei de uns trechos de livros. Lembrei do blog, pensando "ahá, isso aqui eu tenho que contar!". Lembrei de tirar fotos, pedi para tirarem a minha, me encantei com a paisagem.

Até que começou a descida. Ah, a descida. Eita coisinha técnica. Nunca achei que ia ficar com saudades da subida inclinada e escorregadia. Mas fiquei. E olha que eu sou a pessoa que AMA descer. Só que a descida ali era com neve fofa que chegava no meio da canela e na qual você afundava e escorregava. Ali tinha que saber esquiar sem esqui. Quem sabia, descia rápido e se divertindo muito. Quem não sabia, demorou uma eternidade. E quando acabou a nieve começou a pedreira, ou seja, cascalhão de pedras que escorregavam da mesma forma, numa inclinação que fica linda na foto mas é jogo duro na vida real.







Mas como tudo acaba nessa vida, a parte que para mim foi a mais técnica e mais difícil da prova acabou. Tudo o que eu queria era correr. E chegar. Então assim que parou de escorregar horrores, abri a passada e fui, montanha abaixo. Só parei no ônibus que levava a gente de volta ao campamento.

É como voltar para casa. Você só está ali há um dia, mas aquele encontro da galera corredora, a espera pelos que estão chegando, entrar no lago gelado, sentar na areia e relaxar, bater um pratão de massa batendo papo com as amigas, ouvir os relatos de cada um, isso é felicidade, em seu estado mais básico.

Porque o cansaço, a dor, os perrengues, tudo isso passa, mas o dia mais lindo de todos os Cruces, o nós-conquistamos-o-vulcão, essa sensação, é para sempre. Dia 1, seu lindo!
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Cruce de los Andes - Parte I - Pré-prova


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 15/02/12 às 19:47 na(s) categoria(s) dicas, historias de corrida, provas
Pessoas, eu vi. Eu vi o vulcão de perto e tirei foto no pico nevado para confirmar. Sim, sim, sim, estou de vuelta do Cruce de Los Andes 2012, sobrevivi a mais esta e tenho vááááárias coisas para compartilhar. Então senta que lá vem a história, em partes para não virar um post-romance-russo-tipo-guerra-e-paz.

Como vocês bem sabem, a prova não começa na largada. Começa muuuuito antes, nos treinos, depois no check list e finalmente na viagem. Este ano, a parte viagem teve um stress master bold plus: a zona de abre-e-fecha aeropuertos por conta das cinzas do vulcão (não o que a gente ia subir, claro). Ou seja, você compra a passagem para San Martin ou Bariloche e um tempo depois recebe um aviso que estes aeroportos estão fechados e não têm previsão de abrir. E que ainda não se sabe como vai ser a realocação dos voos e passagens, se vai manter as datas e horários, como vai fazer com os traslados, como fica o hotel, enfim, tudo fica incerto e confuso.

Aí depois de dezenas de email e telefonemas, milhares de pesquisas via internê onde você vira praticamente um expert nesse tipo de viagem, muito respira-no-saquinho,  as coisas se resolvem. Mesmo a solução sendo você pousar num aeroporto que vai precisar de um traslado suave de 6h ou 7h até San Martin de los Andes, que é onde o Cruce começou este ano.

Como ninguém treinou meses para desistir por causa de um enrolation, surgiram soluções mil: teve gente que alugou carro, teve gente (tipo eu) que achou um busão amigo e gente que foi de traslado caro contratado a parte. Eu particularmente fiquei bem feliz com o busão --desculpa, o OMNIBUS, que tinha 2 andares, opções leito e semi leito, filminho em duas tvs (o luxo) e lanchitos durante o percuro. Ah sim, o filme destaque foi 2 Filhos de Francisco dublado em espanhol, priceless!

Para coroar o perrengue pré-prova, claro que no dia que a gente chegou estava chovendo. Muito. O hotel era tipo a 4 quadras do Terminal Rodoviário (onde cabem uns 4 ônibus mais ou menos), mas a tchuva não deixava levar as malas a pé, obrigando a galera a esperar os 3 taxis disponíveis a ir e voltar até chegar sua vez.

Pessoas persistentes que somos, chuva não é considerada obstáculo para passear, então lá fomos nós conhecer alguns points, já que tinhamos alguns dias de folga. Lago gelado na chuva enregelante foi o só o começo. O passeio campeão foi aquele em que iríamos dar um rolê em outro vulcão, o Lanin. "É super legal", disseram. Deve ser mesmo, num dia de sol, quando as pessoas sabem o caminho e principalmente quando dá para VER o Lanin. Porque eu não vi, aliás acho que ele não existe. "Olha lá o Lanin", dizia a Ari apontando para o nada no meio da neblina. Podia estar do lado oposto que eu também não ia acreditar, porque na verdade para qualquer lado que você olhasse tinha uma neblina branca e densa. Tudo mentira esse tal de Lanin.

Já a cidade sede da prova, San Martin de Los Andes, é tipo uma maquete. Pequena, cercada de montanhas lindas, em cada esquina tem loja ou de chocolate, ou de esporte, ou de pesca ou é um restaurante que serve truchas (leia trutchas, ou seja, trutas), javali ou cervo. Como chegamos com antecedência, deu para dar uma aclimatada e descansar da viagem, coisa que eu recomendo MUITO para este tipo de prova: chega antes, que esse stress de chegar na última hora e ter que correr para fazer a inscrição e ver todos os mil detalhes da prova não vale a pena.

Aliás, o kit deste ano estava bacanudo: fleece azul royal que deixou San Martin com cara de Aldeia dos Smurfs, 1ª pele, pratos, caneca, garrafa térmica, buff (aquele paninho de cabeça que tem 1001 utilidades, tipo vira bandana, gorro, protetor de pescoço, lenço legionário e lacinho da Minnie se vc quiser), o abadá da prova (a tal camiseta obrigatória com seu nome e bandeira do seu país que vc vai usar todos os dias), bandeira para pendurar na mochila, foto da dupla no porta retrato e mais umas coisitas de comer e beber. Faltou o chocolate patagônico do outro ano, mas nada é perfeito.

Na 4ªfeira, hora de despachar a mala da prova e começou a gincana: como a largada ia ser do Chile e estávamos na Argentina, a mala ia ter que passar pela aduana para ser levada para o acampamento. Neste caso, a aduana chilena veio até nós, com seu scanner e com as várias informações desencontradas sobre o que podia e não podia levar na tal mala.

"Pode levar enlatados mas não pode levar embutidos". "pode levar na bagagem de mão mas não pode na mala". "Pode levar na mala mas não passa na bagagem de mão". "Queijo não pode". "Queijo lacrado pode". "Bananinha e uva passa pode se for lacrada". "Bananinha e uva passa não pode de jeito nenhum". E assim foi, você escolhia a informação que mais lhe agradasse e acreditava nela. Eu escolhi uma que ouvi da Déia e que dizia que "teve código de barras pode". Achei que era simples, soava lógico e tinha um tom oficial.

Mas na prática era tudo meio que uma questão de sorte. Tirando coisas que obviamente nunca pode em aduanas, tipo frutas frescas estilo maçã, banana, pera, ou carnes e comidas a granel, tudo dependia da pessoa que passava sua mala. Teve personas da aduana que mandaram tirar tudo, do atum em lata ao GU em sachê. Teve uns que consideraram que a bananinha era fruta, outros que não porque era industrializado, lacrado (e tinha código de barras, viu como fazia sentido?).

Uns deixaram passar queijo em embalagem lacrada. Uns mandaram tirar até pacote fechado de bisnaguinha. Uma coisa meio Bola 8 Magica, sabe aquela bola para a qual você faz perguntas aleatórias e ela dá respostas idem? Igualzinho. Descobri que sou agraciada pela sorte, porque minha mala passou sem maiores questões --vou até jogar na megasena a partir de agora.

Aí na 4ª de manhã (a partir das 4h da manhã para os que pegaram a senha cedo demais) começou o transfer para o local do acampamento. Era assim: primeiro um ônibus ou van te levava até o Chile. Ali você descia, fazia a aduana com sua mochila de mão e esperava outro ênibus ou van. Daí você chegava num descampado (que seria o local do acampamento do dia 2) e esperava até 3h pela balsa que ia te levar até o acampamento 1.

O bom é que o dia estava LINDO e o balsão foi engraçado. O visual que ia se abrindo era de cair o queixo, até que teve um momento em que fizemos uma curva e apareceu no horizonte uma montanha enooooorme, de pico nevado, tipo láááá longe. Aí alguém disse: "olha lá, é o vulcão que vamos subir amanhã!". Silêncio súbito na balsa abarrotada de gente. Porque pessoas, o vulcão era ALTO. Parecia meio impossível que no dia seguinte a gente ia estar lá no topo. Deu um frio na barriga geral, mas para disfarçar todo mundo começou a rir e criar piadinhas mil.

No Acampamento dos Smurfs (as barracas eram da mesma cor do fleece azul royal), hora de arrumar suas coisas na barraca, comer, deitar na areia, andar na água, conversar com os amigos e fingir que você não sabia o que te esperava na largada do dia seguinte, a partir das 8h da manhã.


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CorredoraZen fez: teste ergoespirométrico SportsLab


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 25/01/12 às 14:52 na(s) categoria(s) dicas, produtos, review, saude
Pessoas, bateu aquele momento Check List do Cruce. Aquele onde você descobre que não tem pilha na sua lanterna de cabeça, que você não testou se o colchão inflável infla mesmo e que falta o teste ergoespirométrico. Oi? Teste? Que teste?

Pois é, este ano, além do atestado médico (que já era obrigatório nas edições anteriores da prova) é preciso levar um teste ergométrico --o ergoespirométrico não é obrigatório, mas já que você vai ter que fazer, faz direito e faz o mais completo, né não?

Pois pessoas queridas, eu preciso confessar uma coisa. Eu não estava assim suuuper animada para fazer o teste. Para ser absolutamente sincericida (sinceridade suicida), quando vi que era obrigatório MESMO o que pensei foi "ai que saco". Não é bonito, eu sei, mas no meio da correria no trabalho (afinal eu vou ficar fora esses dias da prova), do check list das coisas, ainda ter que marcar o exame parecia algo bem mala de fazer.

Mas eu fui e fiz e tenho que confessar outra coisa: eu a-do-rei. Sério. Achei muuuuito mais interessante do que eu me lembrava --porque, já que estamos num Momento Confessionário, o último que eu fiz foi quando comecei a correr, há milênios atrás, e não lembro absolutamente nada dele, só que tinha que correr na esteira e no final eu estava liberada e podia começar a praticar corrida. Claro que eu perdi esse teste há muito tempo e não faço idéia de qual eram meus resultados. Assim, uma pessoa super responsável.

Mas, todavia, contudo, entretante, como todo mundo merece uma 2ª chance, fui para o teste disposta a entendê-lo --ou seja, fui preparada para usar toda minha formação jornalística para atormentar os testadores com perguntas. E nesse ponto, a SportsLab foi o lugar perfeito para isso. Porque a SportsLab tem o Rogerio. E o Rogério (vulgo Dr. Rogério Neves, médico fisiologista e especialista em medicina do esporte) não só tem paciência de responder perguntelhas como ainda se entusiasma e explica resultados desenhando gráficos no papel. Mas deixa eu contar como é este teste e porque agora eu virei fã dele.

A 1ª coisa que acontece quando você chega e coloca seu outfit de corrida/teste é ser pesado e medido e ter que responder questionários. É aí também que contece a checagem dos seus níveis de hidratação, o que é feito via bioimpedância elétrica, ou seja, colocam eletrodos em você e o aparelho mede a quantidade de água no seu corpo. Demora tipo 15 segundos. E não dói.

Aí já começaram minhas descobertas. Porque ao olhar meu teste, o dr. Rogério disse "você não sua muito né?". Gente, pensei, ele é meio vidente. Vou perguntar os números da megasena para ele já. Mas claro que não era magia, era tecnologia. Porque aprendi que, apesar da minha hidratação estar bem OK e dentro do normal, a distribuição da água dentro e fora das células não estava. Aprendi que a água do nosso corpo é dividia em água intracelular e extracelular. Pois esta extracelular minha é baixa. E daí?

E daí que é daí que vem o suor. E o suor é que dá aquela regulada na temperatura quando a gente corre, esfria o corpo e evita o hiperaquecimento que faz a gente parar na hora. Se o reservatório de onde o suor deveria vir já está meio vazio, o corpo espertamente economiza, e não deixa você suar muito. Ou seja, a minha regulagem de temperatura não está boa, e isso pode me fazer diminuir e ter que parar antes do que poderia.

E tem cura? Tem: beber mais água durante os treinos. Eu já bebo, mas o teste te fala quanto seria o ideal de beber por hora de treino --no meu caso 450ml a 600ml (lembrando que isso varia de pessoa para pessoa). O que eu quero ver é como fazer para tomar tudo isso num dia de tiro, que é quando qualquer aguinha a mais chacoalha no estômago e conversa com você até o final do treino.

Mas voltando para o teste, depois de ser medido, pesado e analisado, você está liberado para ir para a esteira e correr. Se fosse só isso estava ÓTEMO, o problema é que tem mais uns equipamentinhos que vão junto com você. Primeiro os eletrodos, que para mim não incomodaram nada, nem lembrava que eles estavam ali. Aí vem a máscara, que vamos combinar, não é exatamente algo gostoso de se usar. Cobre toda a sua boca e você tem que encaixar segurando com os dentes. Bonito não é, como vocês podem comprovar nas fotos. Mas aí vem o que foi o pior para mim: um negocinho que fecha seu nariz, tipo as meninas do nado sincronizado.

O problema é que eu basicamente respiro pelo nariz, então deu uma sensação de ahhhh-não-consigo-respirar-solta-meu-nariz. Mas claro que eu não dei pití nenhum e depois de um tempo melhorou bem, apesar que passar não passou. Mas não mata ninguém nem traumatiza.



Aí começa o teste ergoespirométrico em si, que vai avaliar sua potência aeróbica / cardiopulmonar e sua aptidão física. Você começa andando, depois começa a correr e vai aumentando a velocidade. Quando você está morrendo, ele coloca uma inclinação na esteira e aí sim, você tem certeza que vai morrer. E aí tem mais uns 15 segundos que parecem durar eternamente. E quando passam você acha que não foi tão terrível assim e daria para ter aguentado mais, mas aí é tarde e o teste já acabou.

Aí você relaxa num aparelinho delícia que faz uma ativação muscular e cirulatória --vulgo você recebe uma massagem relaxante vibratória nas pernas. Seria perfeito pós-treino de tiro. Fica a dica, Cris.

Depois disso tudo, senta que lá vem a história, é o momento em que você entende seu teste, que avaliou o comportamente do seu coração frente ao esforço --aliás, é aí que muitas vezes o teste conseguiria pegar potenciais problemas como arritmias, falta de oxigenênio etc e impedir que a pessoa descubra que tem algo assim do pior jeito, que é passando mal, desmaiando ou tendo um troço durante uma corrida.

Para quem corre, o mais legal é aprender sobre seus limiares e o VO2 máximo, que é o nosso potencial atlético (ou falta dele). O VO2 max. mede o consumo máximo de oxigênio, o quanto conseguimos gerar de energia, o que é medido em ml/kg/min. O que determina esse número, é uma junção de fatores: genética + condicionamento físico + constituição física. E dá para melhorar seu resultado?

Dá! Claro que você vai ter um teto, um limitador que é a genética, mas nos outros 2 fatores dá para mexer bem --perdendo as bóias e emagrecendo e treinando mais, melhorando seu condicionamento. Eu, que descobri que não sou uma atleta de alto nível (ah vá), tenho pelo menos uma esperança de melhora que nem é pouca: segundo o Rogério, dá para melhorar mais ou menos 20%. Não sei se no meu caso dá mesmo ou se ele foi bondoso porque eu fiquei decepcionada de não ser um Haile Gebrselassie adormecido num corpo de Corredora Zen.

Mas ainda não acabou. Porque aí aprendi sobre o limiares, que são os momentos durante sua corrida acima das quais começa o acúmulo de ácido lático no sangue e no músculo. O teste determina seus 2 limiares: o L1, ou 1º limiar, é seu liminar aeróbio e o L2, ou 2º limiar, é o limiar anaeróbio. Einh?

O que importa aí é que você aprende qual é a velocidade onde você deve fazer seus regenerativos e aquecimentos --que é abaixo do L1--, qual a faixa de velocidade onde você melhor trabalha endurance e consequentemente melhora resistência --entre o L1 e o L2-- e onde você precisa fazer seus treinos de tiro, melhorar potência e velocidade --acima da L2.

O que fiquei feliz é que eu tenho trabalho certo nessas faixas. Mas eu também fiquei com a sensação de que eu poderia ir bem mais nos tiros --quero dizer, não é bem mais rápido, mas que eu poderia forçar mais, ficar mais perto do meu liminar final. Porque a sensação que tive no teste eu quase nunca tenho nos tiros, o que talvez signifique que eu tenho ficado um pouco abaixo do desconforto que eu consigo aguentar.

Como sempre, é muito fácil na teoria do que na prática. Mas a verdade é que aprendi um bocado com esse teste e melhorei um pouco mais minha consciência corporal (que eu falei no post passado) e ainda descobri coisas que podem melhorar minha corrida.

Deu vontade de voltar --idealmente depois de ficar com corpitcho Bundchen e corrida Paula Radcliff-- e refazer o teste daqui um tempo e ver o que mudou. E se você está começando a correr, faça --e, ao contrário de mim, GUARDE o teste. Se morar em São Paulo, vai lá na SportsLab e pede para fazer o teste com o Rogério. E encham ele de perguntas por mim, afinal os leitores desses blog gostam de corrida e de uma boa conversa.
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Consciência corporal - como vai a sua?


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 19/01/12 às 16:25 na(s) categoria(s) dicas, historias de corrida, saude
Pessoas, faltam menos de 15 dias para o Cruce (Cruce de los Andes, aquela prova LINDA onde você passa 3 dias atravessando a patagônia do Chile para a Argentina, que eu fiz em 2010 e contei tudo sobre, a começar DAQUI). Quando uma prova desse porte vem chegando, minha tendência é ficar super atenta aos míííííínimos detalhes, principalmente no que diz respeito ao meu corpo.

Porque tão pertinho de uma prova onde você vai subir quase 2 mil metros só no 1º dia, se machucar ou não estar 100% fisicamente não parece uma boa idéia né? Como cada um manifesta a ansiedade do jeito que pode, eu que fico zen com questões como mala, mochila e esquecimentos ridículos comuns em viagens, aumento minha consciência corporal uns 3 níveis acima nessa época.

Se isso é uma coisa boa ou não, há controvérsias. Quero dizer, consciência, em minha singela opinião, é sempre uma coisa boa. Já você ter uma tendência control freak em relação a ela, nem tanto. Mas o que eu quero dizer com esse termo tão tecnicamente zen?

Consciência corporal, literalmente, é você ter consciência do próprio corpo. É você se conhecer, saber como seu corpo age e reage e principalmente conseguir identificar em que momento seu corpo está a qualqer momento. Porque não adianta nada saber tudo de anatomia e fisiologia e não conseguir sacar quando você precisa descansar e quando está só com preguiça. Porque a princípio a sensação é bem parecida, parece uma lezeira master e pronto, só que em um caso é seu corpo sabiamente dizendo "pára um pouco senão vai dar m...." e no outro é um dos 7 pecados capitais e só.

Consciência corporal é o que te permite avaliar se essa dor é daquelas que andam --porque eu acredito que dor que anda normalmente tudo bem, é a dor que está sempre no mesmo lugar que costuma ser o problema-- ou daquelas que se você não cuidar JÁ vai virar uma lesão mais séria. É ela também que faz você entender como encaixar a passada perfeita (para você) na prática.

É essa mesma consciência que me faz sentir exatamente onde a corrida dá uma encurtada na minha musculatura e precisamente em quais ásanas (posturas) do yoga eu vou conseguir soltar este encurtamento. Sem ela eu nunca ia perceber que minha pisada mudou com o uso de tênis baixos e sem amortecimento, e que, como observou a Cris, eu tendo a curvar e forçar os ombros e o core quando vou ficando cansada no meio da corrida. Ou que as vezes falta um fortalecimento para conseguir fazer mais força nos tiros.

Ok então, já entendi, consciência corporal é essencial. Mas e aí, onde compra?

Porque a não ser que você seja uma desses seres iluminados, não se nasce com ela. A gente vem com os instintos certinhos, alguns com aptidões mais fortes, mas a consciência vem aos poucos, tipo em suaves prestações. E o melhor jeito de adquirí-la é se mexendo. E prestando atenção no próprio corpo em movimento.

No começo a gente faz as coisas sem pensar. Sei lá, saí correndo e deu certo! Fiz uma força não sei bem como e corri bem rápido! Tipo mágica. As coisas simplesmente acontecem e a gente não tem muito controle do como, nem sabe como repetir aquilo.

É a partir daí que começa a consciência. Se começar a prestar atenção, vai ficando claro. Observando os outros e a si mesmo, treinando, repetindo movimentos, respirando, a gente vai entendo como nosso corpo funciona.

É só estar presente. Não adianta gravar uma corrida sua e analisar o vídeo depois se você não registrou nada enquanto corria. Não adianta o treinador te corrigir se você não sentir o que está fazendo errado. Tem que perceber DURANTE a corrida. Não é uma análise racional e lógica, é mais como ficar atendo ao trânsito, ou as pedras e galhos numa trilha: você precisa perceber, ver que aquilo existe, está lá, reagir de forma apropriada e pronto, não precisa analisar.

Mas claro que perto de provas onde tem palavras como NEVE, 2 MIL METROS DE ALTITUDE, MONTANHA, COBERTOR DE EMERGENCIA e MUY DURO a tendência é ficar procurando pelo em ovo. Tipo "nossa, que cansaço é esse? melhor parar com a musculação". Ou "que dor nova é essa nesse osso esquisito do pé que só eu tenho?".  Aí a solução é apelar para a Naomi e suas agulhas acupunturísticas, só para garantir uma última geral antes de ir pra montanha. E estar presente a cada passada.

Até porque eu preciso lembrar de tudo bem certinho para contar para vocês aqui!


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Confraternização das subidas


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 31/12/11 às 20:31 na(s) categoria(s) historias de corrida

Cada um faz a confraternização de final de ano que gosta, certo? Pois a minha envolveu muitas subidas. E uma pedra. Uma pedra BEM grande. E também não foi uma só, foi uma sequência de 3 eventos, cada um deles envolvendo um tipo diferente de piramba.

Tudo começou com o último treino oficial do ano, que teoricamente seria um treino longo porém festivo na USP, com direito a convescote social no final. Acabou virando o agora já famoso Treino das Muitas Biologias. Todo mundo sabia que o treino ia começar com 8 Biologias --ou seja, subir 8X a ladeira da Biologia. Dureza, mas quando vc se prepara psicologicamente, tudo bem. Depois disso, a promessa era de "vamos correr pelas ruas", que é aquele treino mais tranquilo onde você consegue conversar com as muitas pessoas que estariam ali comemorando o fechamento dos treinos no ano.

Mas quem ia comandar o treino? A Cris. Então eu devia saber melhor que não tinha como as coisas serem tão tranquilinhas assim. Assim, depois das 8 Biologias, vieram as escadarias, o Treino Baloba que já descrevi no post anterior. Sobe de 1 em 1 degrau, depois de 2 em 2, depois de 3 em 3 e... começa tudo de novo. Várias vezes depois, todos pensando Ahá, agora é aquela hora de sair correndo pelas ruas e parar de fazer tanta força.

Aí de repente a gente ouve um "Então, o treino mudou. Tem ritmos muitos diferentes entre a galera e para ficarmos todos juntos vamos fazer mais... 8 Biologias". Precisava muito fotografar a nossa cara nesse momento. Tinha de indignação, ódio mortal a pura estupefação e descrença, com pessoas falando Hahaha, boa Cris, agora fala sério qual o treino. Você já viu ela brincar em treino? Então lógico que era sério.

E assim começamos a correr ladeira acima DE NOVO. Entendam, pessoas, que o fator psicológico aqui é essencial. O corpo vai, mas a mente se revolta. A nossa única diversão era a Vivi soltando um irônico IUPI, SÒ FALTAM 7! a cada nova subida. E assim foi, até que IUPI! o treino acabou, fechando a nossa confraternização Parte I.

A Parte II foi no Natal, ou melhor, dia 24/12, um treino entre amigos em Atibaia. A proposta? Fazer o longo de 30K subindo a Pedra Grande. Gente corajosa e motivada, juntou uma galera sangue bom as 7h da matina, com direito a rolo de fita para o pelotão da morte (aquele que chega em metade do nosso tempo) ir demarcando o caminho. O que aliás Paulinho, Cris (que até sacrificou a própria camiseta quando a fita acabou) & CIA fizeram com uma competência de dar inveja a organizador de prova outdoor. A função do lanterninha era ir recolhendo as fitas, para não deixarmos rastros além das marcas de tênis na trilha.

Pessoas, que treino foi aquele? Mais de 21K de pura subida. Você sobe em estradão de terra, sobe em trilha, sobe em estradinha, sobe no cascalho e sobe e sobe e sobe. Nossa sensação era a de que já já íamos avistar os portões celestes e S. Pedro ali parado perguntando o que é que vcs estão fazendo aqui. Confraternizando S. Pedro. Sol a mil, mochila de hidratação nas costas e um visual ESPETACULAR. Mas cansa viu? E quando você acha que nunca mais vai chegar mesmo e você com certeza perdeu uma das fitinhas e errou o caminho (e dava para se perder bem), de repente você chega lá no topo da Pedra Grande. O que eu e a Déia fizemos em grande estilo, porque a gente pode andar nas subidonas, mas entrar na Pedra Grande foi correndo, tipo lindas para a foto. E rolou um momento UAU!! VALEU A PENA SUBIR! Porque a vista é O MÀXIMO, vc chegou, está em cima da pedra.

Agora é fácil, só descer né? Errou playboy. A descida conseguiu ser muito, mas muito mais sofrida que a subida sem fim. Porque vc desce a pedra em linha reta, tipo desfiladeiro abaixo. E tinha erosão que não acabava mais. E onde você punha o pé rolava pedrinha e escorregava. E era muito inclinado mesmo. E quem tinha joelho dolorido chegou lá em baixo tipo joelholess (vulgo sem joelho). Mas foi demais.

Aí acabou né? Nada. Não podíamos encerrar 2011 sem um treinão no último dia do ano, vulgo hoje. Light? Não, mais uma subida na Pedra Grande. Mas dessa vez, S. Pedro estava de mau humor e estava chovendo, o quorum foi bem menor e a princípio a idéia era fazer um treino menor, tipo a Volta do Mackenzie.

Mas aí a Ceci tinha vindo para esse treino só para subir a Pedra Grande né? Pois é. "Não gosto de decepcionar meus alunos" - foi a deixa da Cris para garantir que com chuva ou sem, iríamos chegar até a pedra. Só que dessa vez foi ao contrário. Subimos pelo lugar da descida --tipo paredão, mas com a chuvinha estava muito melhor, escorregando bem menos e subir é mais fácil nesse caso. E olha que dessa vez fui com meu Brooks, que esqueci o chuteira em SP. Mas pensei, se a Adriana (leitora querida cujo email eu só achei essa semana hehehe) pode não só correr como ganhar a Bertioga-Maresias com esse tenis, eu também posso fazer um treininho com ele né?

Conquistamos a pedra grande pela 2ª vez em 15 dias, dessa vez com neblina, chuva e um vento dos infernos que gelou nosso grupo - mas não impediu Ceci e Renato de tirarem as necessárias fotos. Mas foi só começar a descer que tudo ficou bem.

O mais legal é que dessa vez descemos pelo lado oposto, ou seja, eu posso dizer que já dei a volta completa na Pedra Grande, uma sensação muito legal. E assim foi a última confraternização do ano. Subindo e descendo, correndo, andando e principalmente curtindo amigos queridíssimos, que é o que faz cada passada valer mais a pena.

Obrigada amigos, obrigada leitores, um SENSACIONAL 2012 para vocês pessoas queridas e nos vemos no ano que vem.

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O Treino Balboa


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 06/12/11 às 17:29 na(s) categoria(s) dicas, historias de corrida
Você lembra do Rocky Balboa? Isso mesmo, o lutador de boxe italiano criado e interpretado pelo Sylvester Stallone, imortalizado na franquia de (por enquanto) 6 filmes Rocky. Deixando de lado aquela interpretação de uma expressão só que é a marca registrada do nosso Sly, além das cenas de boxe tem uma coisa que todo mundo lembra dos filmes: o treinamento.

Sim, porque Rocky, além de sofrer, apanhar e depois dar a volta por cima no final, só consegue triunfar porque TREINA. Mas não é qualquer treininho não. Tem que ter muito suor, muita cara de dor e sofrimento e cenas marcantes como correr com criancinhas, correr com cachorro, correr na neve, correr na chuva, correr na praia, fazer flexão no cano e... subir escadas. Muitas escadas. De preferência entortando a boca de tanto fazer força, ao som de uma trilha sonora dramática.

Pois para homenagear esse atleta tão, digamos, ímpar, tem um treino batizado com o nome dele. Senhoras e senhores, apresento o Treino Balboa. Que consiste basicamente em subir e descer escadas. O cachorro, criancinhas, soquinhos no ar, caras e bocas ficam por conta de cada um, mas as escadas são obrigatórias.

Você pode fazer o seu Treino Balboa onde quiser, desde que tenha muitos degraus. Eu, que estou chegando no pico de treino da planilha para o Cruce, tenho feito alguns, intercalados com muita piramba e trilha. Meus Treinos Balboa aconteceram em 2 lugares: na escadaria da USP, ali do lado da Biologia, e no Pacamebu, nas escadarias do bairro.

A idéia é sempre começar correndo para aquecer (de 3k a uns 5k mais ou menos) e aí pronto, hora da escada. Tem várias opções de treino, mas a que eu normalmente faço é aquela em que você sobe a 1ª vez de um em um degrau, a 2ª de dois em dois e a 3ª de três em três --e aí dá uma corridinha que é normalmente uma volta entre o fim até o começo da escada e começa tudo de novo. É, é difícil subir escadas de 3 em 3 degraus. E não, você não deveria estar usando o corrimão para ajudar. E sim, pelo menos na de 1 em 1 tem que subir correndo, nada de caminhar.

É duro. Mas é bom. Frita as batatas da perna, mas se você for subir montanhas depois, vai agradecer ter feito o Balboa. Aliás, mesmo se não for, é um treino bem interessante de entrar para a sua planilha. Porque depois de horas de escada, correr no planinho fica incrivelmente mais fácil. Como tudo na vida é uma questão de perspectiva, né não?

Então entra no clima, pega aquela blusa com capuz, faz expressão monotemática e vai para a escada, de preferência com uma trilha sonora hollywoodiana. Só cuidado para não assustar os transeuntes com gritos de vitória, soquinhos no ar ou caras excessivas de dor, vão achar que você está tendo um faniquito.

Para entrar no clima:


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Corredora Zen :-) testou: Brooks Green Silence + ...


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 23/11/11 às 11:33 na(s) categoria(s) dicas, provas, review
Depois do post anterior reclamando da falta de cores não-rosa para tênis femininos, estou realizada. Pude estrear meu novo e COLORIDO Brooks Green Silence na meia maratona Athenas, que rolou esse fimde aqui em SP.

E colocando em prática novamente minha tese de que tênis bom não precisa amaciar (viu Nishi?), você calça e sai correndo, o Brooks vermelhão & amarelão fez bonito. Comprei na 5ªf, usei para fazer um trotinho de meia hora no sábado e já fui pros 21K no domingão. Resultado: perfeito! Me ajudou a fazer um tempo recorde sub 2h sem bolhas, sem comida de pé no calcanhar ou beiradas, sem atritos machucantes. Nem lembrei que ele existia durante a prova --o que é o ideal quando se trata de tênis de corrida.

O Green Silence tem esse nome porque, segundo a Brooks, tem uma proposta de ser ecologicamente correto. Um aparte: esse terminho me incomoda pacas, apesar da idéia ser bacana. Mas vamos combinar que sustentável MESMO seria correr descalço ou pelo menos não comprar tênis novos e usar os seus até desmancharem. Ao comprar esse tênis, eu já não fui nada sustentável --mas tenho usado ou meus até desmancharem literalmente.

Mas estou saindo do assunto. Voltando ao Green Silence: eco-amigável significa que ele tem solado biodegradável, que 75% dos materiais usados no tênis são reciclados, que as tintas não são tóxicas, que a embalagem tbm é reciclada e vários outros cuidados do gênero. Não vai salvar a humanidade daquele meteoro que todo mundo sabe está chegando, mas é uma ação prática bastante louvável.

Para quem gosta de um tênis mais minimalista --vulgo com amortecimento mínimo-- flexível pra caramba e muito muito confortável, esse é o tênis. Além do detalhe não menos importante de ser BONITO, o que no caso significa cores fortes e design simpático. Deixa seus dedos se mexerem dentro do tênis e o pé articular totalmente, ou seja, nada daquela sensação de que seu pé é uma prancha dura que só articula no tornozelo que os tênis com amortecimento maior me dão.



O complemento do teste foi o porta-chip Switcheasy RunAway Nike Plus iPod AnyShoe Adapter (que nome curto e fácil, não é minha gente?). Eu tenho gostado bastante de usar o SportBand da Nike, aquele reloginho que sincroniza com um chip que vai no tênis e te dá pace, cronômetro, quilometragem, calorias e, claro, a hora. Vulgo um pedômetro chic, primo pobrinho de um Garmin da vida, que tem GPS, mostra o percurso, dá pace km a km e provavelmente ainda de te chama de sua linda nos momentos mais duros do percurso.

O único problema é que o chip foi criado pela empresa para (óbvio) ir dentro dos tênis Nike, que têm um espacinho próprio para isso embaixo da palmilha. Até aí, se eu fosse da Nike faria a mesma coisa, estão certíssimos. Só que eu não sou e tenho tênis de tudo quanto é marca, além de sentir falta de usar o reloginho especialmente nos treinos de montanha, onde Salomon rulez.

A solução foi pesquisar na internê e achar um portachip que resolvesse o problema. Achei na gringolândia, via minha amiga Amazon.com. Dos portachips nacionais não achei nenhum que fosse rígido e desse uma protegida contra respingos e chuvinha, então fui nesse mesmo.

Baratex e eficientíssimo. Não acho que ele segure um mergulho no rio (vamos descobrir o que acontece com o chip quando molha em breve), mas tem funcionado muito bem em trilhas e treinos normais no parque. Vi pessoas reclamando que era frágil, mas comigo por enquanto tudo tranquilo, não quebrou nada nem se soltou do tênis.

Achei ÓTEMA solução para quem usa o reloginho ou sincroniza com iPod/iPhone e quer usar seu Conga para correr.
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O caso da unha preta


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 18/10/11 às 14:19 na(s) categoria(s) dicas, fail, historias de corrida, saude
Quando comecei a correr, as pessoas viviam me perguntando: e aí, vc fica com aquelas unhas pretas o tempo todo? Oi? Como assim por exemplo? E as pessoas me respondiam coisas como "ah, eu tenho um amigo que também corre e ele está SEMPRE com alguma unha preta". SEMPRE? Jura?

Aí, com o passar dos anos fui conhecendo CORREDORES que também achavam que unha preta ou unha nenhuma era não só o estado normal das unhas do pé como quase um sinal de que você é "corredor DE VERDADE", seja lá o que isso quer dizer. Como se a unha preta fosse a prova de que você realmente fez força. Taaaanta forrrrrrça que a unha do pé não aguentou sua potência incrível, sabe assim?

Então, eu tenho uma revelação: a não ser que você seja da corrida de aventura, não precisa ser assim. Porque se você é corredor ou corredora de aventura, não só sua unha caiu como provavelmente nasceram várias bolhas, frieiras, fissuras e feridinhas aleatórias, seu estômago deve estar sensível pacas e suas mãos também não devem estar aquela maravilha --e aí é meio inevitável sim, porque passar dias socando a bota na lama, terra, pedra, pedalar, remar, carregar bike, cair, dormir pouco e sempre com os pés molhados não tem como ser diferente.

Mas se você NÃO é da corrida de aventura, não tem porque andar com mais esse troféu por aí, assustando pessoas na academia, na praia, na aula de yoga e no verão, quando se anda de sandalinha neste país.

Agora, a parte mais incrível dessa inusitada possibilidade, correr sem viver de unha preta, implica em se abrir para uma nova verdade: correr não deixa ninguém de unha preta, o tênis sim. Ou então você é fã do Zé do Caixão e não acredita em cortar unhas dos pés. A corrida em si não faz cair unha nenhuma. Porque vamos relembrar como tudo acontece: você corre, seu dedo -ou mais especificamente a unha do dedo-- bate e bate e bate sempre no mesmo lugar na parte de cima do tênis, se machuca e forma um hematoma. Hematoma = unha preta. Aí o próximo passo é a unha preta cair e nascer uma nova, toda deformadinha, por baixo. Bonito demais né?

Eu tive o desprazer de viver essa experiência há alguns meses atrás. E olha que não foi correndo ladeira abaixo ou chutando pedras na montanha, que é onde isso acontece com uma frequência maior. O caso foi o seguinte:

Fui fazer um treino longo de 25K e aproveitei a prova que estva rolando junto com a Maratona de SP. Fui feliz, acompanhada da galera sangue bom que estava no mesmo barco, na época treinando para a K42 Bombinhas. Era só um treino, mas óbvio que treino é treino e prova é prova e o ritmo foi beeeeem mais forte do que o programado. No final, 2 dedos bem doloridos, os mesmos de cada pé. A prova do crime: 1 par de Nike Lunar Glide, que eu já vinha usando há tempos e nunca tinha dado problemas. Mas, também, eu nunca tinha corrido mais de 1h com ele --e eu venho correndo cada vez mais com tênis mais baixo, do tipo Nike Free, Brooks GreenSilence e afins. Quem mandou não ir com eles?

Como eu sou uma moça fina de família, prendada ao ponto de saber fazer sua própria manicure, estava com esmalte em dia, ou seja, só fui ver que as duas unhas estavam pretas quando fui trocar de cor. Aí, já era tarde demais.

Porque se eu tivesse notado no dia, ainda dava para tentar o método faca-na-caveira, ou melhor, agulha-na-unha. ATENÇÃO PESSOAS, NÃO TENTEM FAZER ISSO EM CASA, a não ser que assinem um tratado dizendo que se der tudo errado, tudo bem. Porque esse método survivor usa uma agulha, desinfetada e aquecida na chama, para encostar na unha até fazer um microfurinho na danada. Aí o sangue concentrado sai (que é o que estava deixando a unha roxa-preta), a unha clareia e provavelmente não precisa mais cair. Mas só dá certo se fizer na hora, dias depois nem adianta tentar. Mas vejam lá pessoas, usem o bom senso, não quero saber de reclamações no blog dizendo que fulaninho atravessou o dedão do pé com agulha incandescente ou sicraninho perdeu a perna por causa da infecção da agulha de costura que roubou da máquina da vó. Falem antes com um amigo médico que com certeza vai dizer que é arriscado e melhor não fazer. Ouçam o amigo médico.

Seja lá como for, não dei uma de Bear Grylls (aquele cara do A Prova de Tudo) e fiquei de muito mau humor.  Porque vamos falar a verdade, pé faltando unha é MUITO FEIO. Não mata ninguém, não dá divórcio, não impede de ir pra praia mas.... não favorece ninguém, vai. E a unha que cresce por baixo do estrago? Toda esquisita, meio disforme, sequelada coitada.

Se você curte uma unha pintada, os esmaltes de cores escuras são seus amigos. Tanto durante a fase unha preta quanto para não chamar tanta atenção na unha nova esquizo que nasceu. Se você for do tipo matcho-man ou unhas-só-ao-natural, finja que tem orgulho da coisa. Aquele tipo de orgulho que a gente tinha quando era criança e discutia quem tinha o machucado mais feio no pátio da escola, sabe? Ou use um bandaid até ficar mais apresentável.



Agora, se a eliminação sistemática de unhas é uma constante na sua vida, pára tudo.  E troca de tênis. Aproveita e corta a unha também,do jeito que a mamãe ensinou, sem tirar demais nos cantos para não encravar e dando uma lixada para não ficar pegando na meia.

Mas a probabilidade maior é do culpado ser o tênis mesmo. Será que o que você está usando não pega no dedão? Ou tem o "teto" baixo demais e raspa nas unhas? Ou a ponteira está muito próxima dos dedos? Ou a forma está apertada? Na dúvida tente outro, e outro, e outro, até achar um que deixe seu pé correr sem sufocos, apertos ou raspadinhas. Eu posso garantir que dá sim para fazer prova de montanha de 3 dias (vulgo Cruce de los Andes) sem uma bolha sequer e com as unhas 100%.

Combinado? Então vamos colocar em prática a campanha Unha preta - ninguém precisa ter uma.
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A maldição do tênis rosa


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 07/10/11 às 18:58 na(s) categoria(s) fail, produtos
Eu sou daquele tipo que acha que tênis de corrida não tem que ser discreto. De discreta, basta a minha performance. Por motivos que qualquer mulher vai entender,  eu sou sempre a favor de um shorts / calça nas cores óbvias preto-ou-cinza-mesclado. Além disso, as camisetas de corrida do Núcleo Aventura/Projeto Mulher são lindas e básicas, tipo pretas ou brancas. Adoro.

Com toda essa discrição, a cor tem que ir pra onde? Pros pés. Vocês já se perguntaram "mas quem é que usa essa cor esdrúxula?!" ao ver um tênis amarelo ovo ou um verde radioativo com vermelho grito? Sou eu. Não quer dizer que eu goste de qualquer combinação e tom de cor forte, mas entre um azulão que quase brilha no escuro e um cinzinha não tenho a menor dúvida.

Ou melhor, eu usaria SE achasse os tênis que eu gosto numa cor que não fosse...  ROSA. Porque se você é homem e resolveu comprar um tênis de corrida, parabéns. Vai poder escolher não só entre as várias marcas e modelos como também entre uma infinidade de cores que vão do básico ao muito legal. Agora, se você é mulher, normalmente você tem 3 alternativas: ser a Penélope Charmosa, usar preto ou passar MUITA vontade.

E cor é importante sim. Não me venham com essa de tênis-de-corrida-tem-que-ser-confortável-e-tá-ótimo. Cor me faz feliz. Pessoas, não se contentem com pouco. Tem que ser confortável, não se auto-destruir em 3 longões e... ser bonito. O que pra mim, sinifica colorido.

Porque eu não sei se são as marcas ou as lojas ou um complô entre ambas que decidiu que tênis feminino colorido pode ser rosa, pink, rosa bebê, azul cuequinha ou, ousadia das ousadias, verde água. Ou ficar no preto e cinza. As cores legais ficam todas do outro lado, na seção masculina.

Já ouvi que "preto é o que vende mais" e que "ah, mas toda mulher gosta de rosa". Tudo bem que em qualquer business como roupa, langerie e sapato as cores básicas e neutras são as que vendem mais sempre. Eu não pretendo mudar este quadro. Mas nem por isso vc precisa simplesmente eliminar as alternativas para a pobre porcentagem feminina que não quer usar o tênis da Hello Kitty, ne?



A boa notícia é que esse cenário descolorido vem mudando. Fora do Brasil, as marcas estão super caprichando nas cores: tem um Salomon Speed Cross (meu querido chuteira) feminino coloridíssimo. Tem o Newton (na linha tênis baixinho) multicolors. Tem os Nike Free de tudo quando é jeito e cor. Tem os Adidas Clima Cool num vermelho lindo, ou então amarelão. O chato é que essa variedade é basicamente impossível de se encontrar em terras tupiniquins se você calça menos que 39 ou 40. Tipo o Asics Gel Noosa Tri --esse só vi uma cor na versão feminina. adivinha qual cor?

Aqui, quando você pergunta se tem vermelho, azul, roxo com verde limão (ahá esse eu tenho), recebe um sorrisinho amarelo e um "feminino tem preto, cinza... ah e tem ROSA". Rosa te garanto que SEMPRE tem. Igual aquele capacete rosa-calcinha que é quase uma unanimidade em São Paulo (foi uma liquidação gigante? quem compra 1 ganha 3? porque tanto homens quanto mulheres usam como se não houvesse amanhã?).

Não me entendam mal, eu não odeio rosa. Eu gosto até. Tenho um tênis numa cor que fica entre o pink e o vermelho, tive um famigerado cinzão com rosa e meu querido Vibram Five Fingers é rosa com laranja. Mas que tal abraçar a diversidade de cores?

Como por exemplo o Brooks Silent Green (que deve ser coloridão porque é unissex). Ou aquela linha das bandeiras de países, o K-Swiss K-Ona. Ou seja, há esperanças. Mulheres que gostam de Outras Cores que Não Rosa, uni-vos.

Quem sabe a gente não colore um pouco mais esse mercado?

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Mais essa, São Silvestre?


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 14/09/11 às 19:35 na(s) categoria(s) fail, historias de corrida, provas
Vamos falar de São Silvestre? Eu admito que estava enrolando para entrar no tema. Porque ou você discorda veementemente da nova mudança e explica detalhadamente porque ou concorda e aí fala um pouco menos --já notaram como ser contra gera muuuuito mais conteúdo do que ser a favor?

Pois bem, primeiro vamos recapitular essas mudanças. Era uma vez uma prova chamada São Silvestre, que nasceu laáááá na década de 20 naquela época elegante em que o mundo ainda era em preto e branco. Essa prova, realizada no último dia do ano, passou por várias mudanças ao longo dos tempos e até sobreviveu a uma guerra (a II Guerra Mundial). Será que ela sobrevive pós anos 2000 ou acaba com o mundo lá por 2012?

Para mim, a pior mudança foi a que poucas pessoas acham tão terrível assim: a do horário. Porque terminar a corrida a meia-noite é um marco da minha infância e fase Pollyana Moça. O ano novo só chegava depois da São Silvestre terminar e o aniversário do meu pai passar. As doze badaladas chegavam com a TV ligada na corrida. Muuuuuito mais legal do que correr naquele sol de rachar coco das 15h em pleno verão, o asfalto derretendo e soltando aquele bafo quente em você.

Eu sei, corrida a noite significa que um monte de gente vai trabalhar no reveillon. Tem a segurança, os perigos do escuro, a iluminação, a festa da virada e sei lá mil coisas. EU SEI. Mas eu ainda preferia a corrida que literalmente fechava o ano. Me deixem ser saudosista vai.

Ultimamente as mudanças tem sido daquele tipo que deixa um gosto amargo na alma de qualquer corredor. Tipo entregar a medalha antes da prova. Se não tem a menor condição de entregar no final, desencana da medalha. Ou então me explica qual o sentido dela. Porque para mim, ganhar a medalha antes não tem nenhum.

Pessoalmente, gosto muito mais dos números de peito do que das medalhas, então por mim baixa o preço da inscrição e tira a coisinha de pendurar no porta-medalhas. Ou não faz onda e entrega no final mesmo. Pode ter ficado ÓTEMO para a organização e o pessoal da logística da prova, mas para o corredor foi um desrespeito ao sentido de EXISTIR uma medalha, a não ser que passemos a ver a dita cuja como um brinde a mais do kit, tipo a viseira, os papeizinhos de propagandinhas e os sachês engraçados (tipo café, suco, protetor solar e até shampoo já veio).

Mas a cereja do bolo --destacando que eu não gosto de cereja-- foi essa última mudança, que é a prova terminar no Ibirapuera. De novo, o pessoal da organização & logística suspira feliz. E o corredor? Esse, desde que continue se inscrevendo na prova, tudo bem.

Terminar na Av. Paulista fazia parte do lado mítico da São Silvestre. Terminar ali, no meio da muvuca, no meio da festa, era essa mesmo a idéia. Não era acabar em um local sossegado, silencioso e tranquilo (tá, talvez nem tão silencioso e tranquilo assim). É uma prova que marca o reveillon gente! Tem que ter FESTA.

Novamente, eu sei, é o pesadelo da logística. Eu juro que não odeio os profissionais da organização. Sei que prova dá um trabalho dos demônios, a lei de murphy impera, dá mil tilts e pepinos e a culpa é da CET. Mas tem um limite do quanto dá para descaracterizar a prova.

Porque se for seguir apenas o raciocínio da logistica, o ideal mesmo é que a prova acontecesse no dia 30 de dezembro e não no 31. E talvez  fosse melhor que acontecesse em um lugar mais tranquilo, talvez dentro da USP, que além de tudo é mais seguro. Do ponto de vista da logística faria o maior sentido. Seria um sonho. Do meu, seria um pesadelo. E seria outra prova. Para a São Silvestre, seria péssimo, assim como para a comunidade do povo que corre na rua.

Ou seja, não gostei. Adoro o Ibira, mas ali eu me sinto terminando mais uma prova e não A Famosa São Silvestre. Lamento deveras pelo povo que nunca vai conhecer a emoção de terminar no meio do fuzuê. Que não vai saber o que é subir a Brigadeiro quase na boca da chegada. Para mim, o atrativo de participar da prova caiu vertiginosamente. Vou continuar assistindo, não vou negar. Porque adorei correr essa prova e tenho um carinho especial por ela. Mas que perdeu a graça, perdeu.

Claro que se eu fosse absolutamente contra mudanças na prova, deveria também ser contra a participação feminina, infantil e de estrangeiros na São SIlvestre. Mudanças podem ser boas sim, mesmo quando a gente estranha no começo. Mas pessoas, cadê aquele animal em extinção, o tal do bom senso?

Se for para tirar tudo o que caracteriza a São Silvestre como tal, vamos logo mudar de nome. Eu sugiro mudar para Corrida de São Longuinho, que é um santo tão bacana que gosta de pulinhos. Essa prova poderia terminar até no lago do Ibirapuera ao lado do não menos mítico crocodilo e dessa eu super topo participar. Vamos lançar a idéia?



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O dia em que eu ganhei da Cris no tiro


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 31/08/11 às 14:22 na(s) categoria(s) fail, historias de corrida
É, eu sei, estraguei todo o suspense do post com esse título. Mas quem liga para isso quando pode falar que GANHOU DA CRIS NO TIRO? Contextuando: a Cris, minha treinadora, aquela pessoa que faz o Cruce de Los Andes em tipo 3h (e ganhou nem lembro mais quantas vezes), correu Mont Blanc, Ecomotions, Xterras, Northfaces, triatlons, aventuras mil e tem uma vida acostumada a pegar pódio em tudo que é de correr.

Mas que hoje, nesse dilúvio que se abateu sobre Sampa, ficou para trás de uma aluna que há uns 7 anos atrás começou caminhando e trotando com uma cachorra preta, ouvindo as meninas falando em correr os tais 10K de longão e achando que JAMAIS correria uma distância tão grande. E que só começou a correr provas, cada vez mais longas, porque ela disse que dava.

Então vejam bem, não é que a Cris estava machucada e não treinou, porque aí não valeria. Ela até está machucada, mas isso não seria o suficiente para este feito. O que importa é que ela correu também, ali do lado. O fato de ela estar se recuperando depois de ter ficado de cama sem se mover por 1 semana, vítima daquele mosquitinho abusado que deixa as pessoas dengosas e sem fôlego por meses, NÂO VEM AO CASO. Deixa eu ser feliz, nem que seja por um treino poxa.



Aliás, a única outra vez que eu corri mais rápido que a Cris foi quando ela estava grávida de 9 meses. Porque quando ela estava "só" de 7 meses ainda não dava. Fora isso, tiveram alguns momentos tensos, que são aqueles em que ela está pós-prova ou já treinou e vai só dar um trotinho regenerativo e fala para você: VOU CORRER NO SEU RITMO. Aí a casa caiu para você, porque ÓBVIO que ela não corre no seu ritmo e é você quem vai morrer correndo no dela, fazendo fartleks que alternam muito forte e fortíssimo.

Ah sim, e antes que vocês me acusem de ser uma pessoa cruel que tripudia sobre as dores alheias, deixa eu contar que esse post foi uma sugestão da própria Cris, porque ela correr devagar é um fato tão inusitado que acho que até ela se espantou.

E riu da situação e dela mesma, como só os grandes sabem fazer. Valeu Cris por me fazer sentir a mulher mais rápida do treino de hoje!
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K42 Bombinhas, ninguém pede pra sair


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 09/08/11 às 20:49 na(s) categoria(s) historias de corrida, provas
É pessoas, estou de volta do K42 - Bombinhas. Você segue aquela máxima que diz Quanto Pior Melhor? Se sim, vai A-DO-RAR esta prova, autoproclamada a maratona mais difícil do Brasil. E olha, com razão.

Como toda boa aventura, essa começou antes da prova, com a Questão do Clima. Ou melhor, da dúvida: vai chover durante a prova ou não vai? Os sites meteorológicos passaram os últimos 10 dias garantindo que sim. Parecia pessoal, com sol a semana toda até 6ªf e no sábado e domingo chuva ininterrupta, para voltar o sol a toda na 2ª. Aí já viu: maratona de trilha/montanha com chuva é aquele perrengue. Eu, pessoalmente, estava inconformada. Já me basta ter pego o Dia Maldito do Vale da Merda no Cruce de los Andes (para saber do que estou falando leia AQUI). Na K42 eu queria TEMPO BOM. E praia no dia seguinte.

Mas, como as previsões eram de caos e horror, levei o bendito impermeável, zip locks e afins. Do nosso grupo, só a Ari insistia que ia fazer sol. Teve gente que trouxe até a previsão do apocalipse impressa para provar que ia sim chover. E a loira nem aí, bateu o pé e disse que ia ter sol. E não é que ela estava certa?

No meu celular tem previsão do tempo e acontecia um fenômeno curioso. Há 2 dias que, cada vez que eu atualizava a previsão ela mudava. Para melhor. Na vépera já estava sol com possibilidade de chuva no sábado e chuva mesmo só no domingo. E na vida real? Sol, céu azul e tempo lindo o fimde inteirinho. Eita gente pé quente né ão?

A viagem foi pra lá de suave, uns 50 minutinhos de voo, mais 1 horinha na van do hotel e pronto. Galera nos quartos, animadíssima para o dia seguinte. A largada ficava a uns 300m do hotel, ou seja, era só ir andando até lá. Café da manhã tomado, ansiedade a mil, todo mundo paramentado: mochilas de hidratação ou garrafinhas na cintura, meias de compressão ou não, shorts, calças, viseiras, bonés, cada um no seu estilo.

Eu e a Déia passamos HORAS decidindo se íamos correr de mochila de hidratação ou não. O racional dizia que sim, afinal não somos pessoas que iam terminar a prova em 5h (o recorde feminino é de 4h19) e quando dá sede na piramba é horrível não ter água. Por outro lado, dava MUITA vontade de sair mais leve, tipo só uma caramanhola na cintura e ir abastecendo nos PCs. Mas como nunca havíamos feito a prova, o racional venceu e a mochila foi junto, companheira velha e já testada de provas anteriores. Não me arrependi.

Amanhecer lindo, largada na areia, pontualíssima, as 8h. Decidi fazer uma prova, assim, mais roots, de-raiz, tipo sem-chip-e-sem-relogio, fazendo estilo nem-ligo-pro-tempo. Traduzindo: meu relógio morreu antes do café da manhã (para ressuscitar no dia seguinte só).

Larguei levando meu combustível: água na mochilinha, damascos, castanhas, sal e gel nos bolsos. E muita animação. Lá pelo km 8 começou a 1ª piramba. Pela altimetria, seria a pior de todas, mas na prática não foi porque era no começo, todo mundo animadíssimo e ainda cheio de amor pra dar. E subiu. E subiu. E subiu mais um pouco, até que começou a descer. Como eu não sou assim o papa-léguas das subidas, consegui compensar um pouco (eu disse um pouco) nas descidas e passei pessoas enquanto despencava ladeira abaixo.

Agradeci mentalmente céu azul e sol a prova inteira. Em cada trecho, pensava "imagina como seria fazer esse pedaço na chuva?" e ficava feliz. Porque seria péssimo. Pessoas que correram essa prova com chuva ano passado: parabéns, vocês foram guerreiros e devem ter penado MUITO naquelas erosões, barrancos e pirambas cheios de raízes, pedras e areia. Já eu, zen chuva nenhuma, me distraí olhando o mar azulzinho e o visu colorido e sequinho do percurso haha. Que lindo né? Pois é, mas na hora em que você está ali fazendo força, esse pensamento tão caridoso em relação ao próximo não ajuda em nada.

Mas posso confessar uma coisa? Um dos lugares que mais sofre foi.... no plano. Na praia, correndo numa areia que nem era tão fofa, num retão. Tinha só uns 4 ou 5K, mas para mim pareceu que tinha uns 15K. Gente, a praia não acabava nunca. Você corria, corria, corria... e o final continuava laááááá looooooonge. Nem o mar de cenário de filme ajudava mais (até porque você só OLHAVA aquela água refrescante toda mas continuava correndo com o sol na cachola).

Aí uma hora chegou, junto com a metade da prova. Nos 21K eu estava cansada, mas feliz. Tomei um isotônico daqueles efervescentes. Teoricamente tinha isotônico no PC, mas eu não vi, o que pode ter sido totalmente uma incapacidade minha, já que nas provas os neurônios vão para um centro de meditação distante e lá ficam até tipo o dia seguinte ou mais. O que eu vi foram bananas amigas, que viraram um lanchinho rápido antes de seguir adiante, no melhor espírito bandeirante desbravador.

E foi aí que a prova realmente me pôs a prova. Porque pessoas, na K42 de Bombinhas, a 2ª parte da prova é BEM mais difícil que a 1ª. Então se você terminou os 21K se achando bem na foto porque subiu e desceu todas aquelas pirambas, segura a onda que agora que a conversa fica séria de verdade.

Juro que não sei dizer se as subidas são piores ou se nem tanto e são os km acumulados que fazem parecer pior. Na prática, não faz a menor diferença. No briefing do dia anterior, o moço que descreveu o percurso da prova ia falando assim "ah, aqui é só 300m, a trilha é fácil. aí sobe aqui, desce ali, só 200m, é tranquilo. aí pega esse trecho de praia, é bem fácil", como se a prova fosse ridícula de simples e a gente que dificultasse tudo. Aí quando ele chegou na parte da 2ª etapa começou um tal de "ah, aqui tomem MUITO CUIDADO que tem muitas raízes. aí vira, sobe, desce, sobe de novo e tomem MUITO CUIDADO que escorrega bastante. aí sobe, sobe, desce, vira e MUITO CUIDADO com as pedras! se cair o bombeiro não resgata hahahaha é brincadeira". Ou seja, meu cérebro gravou que na 2ª parte = muito cuidado.

Gente, o moço estava certo. 2ª parte = muito cuidado. Com chuva então, melhor partir para o esquibunda, aquela modalidade onde vc senta e vai deslizando ladeira abaixo, conhece?

Pois bem, depois de 34km chegou o outro grande PC, muuuuito bem vindo. Isotônico + melancia, uma delícia naquele sol. Depois dali, teve a 1ª alcinha. Alcinha era um vai-e-volta obrigatório, com o povo da organização no estilo pegadinha, anotando todo mundo que passava para nenhum espertoman inventar de cortar caminho. Foi meio chato por vc encontrava o povo voltando enquanto vc estava indo --foi ali que encontrei a Déia e o Harry, e logo depois, na minha vez de voltar, a super Naomi.

Mas o visual da tal alcinha compensava, então tudo bem. Mas a vida não era só agruras, que teve a praia de Mariscal, cheia de incentivos visuais. Lá pelo km 36, lembrei do pão de forma que eu tinha roubado do café da manhã e das instruções da Ari para comê-lo depois do km 33. Não tive dúvidas, pesquei na mochilinha e comi. No começo foi meio difícil de comer, mas assim que bateu no estômago, hmmmmmm! Fez um bem! Parecia que eu tinha comido um daqueles pacotinhos de vida de videogame.

E teve mais uma alcinha. Essa me deixou meio de mau humor momentâneo, porque achei ruim no final da prova fazer esse vai e volta. Desnecessário, foi o que pensei na hora, podia fazer a gente não repetir percurso. Mas tudo bem, faz parte do perrengue domar a mente também.

Aí a desgraceira continuou, até que chegou o km 38. Que foi a hora que eu pensei "po, agora tá acabando! faltam 4K só! beleza!". Ah, a ilusão dos ignorantes. Porque foi aí que a casa caiu. Começou, para mim pelo menos, a pior subida da prova. Na verdade era mais baixa que a 1ª, só que parecendo ser muito, mas muito, muito pior.

Porque você não espera um paredão no km 38 né? Nuossa, você não parava de subir. No meio tinha uns bombeiros engraçadinhos falando "vamo lá, só falta 3k", semi-deitados descansando na sombrinha. Vontade de
arremessar a dupla do barranco, mas como eu sou zen, sorri docemente, enquanto visualizava os caras escorregando morro abaixo. É, eu sei, a intenção deles era boa. Mas nós sabemos aonde é que está cheio desse tipo de intenção né?

Quando essa subida master blaster plus acabou, começou a descida, claro. Pessoas, o que era aquela descida? Íngreme até não poder mais, com milhões de raízes, pedras soltas e areia. Ah sim, e ladeada de espinhos gigantes. Quase um videogame mesmo. E quando você vencia essa pirambeira, com as pernas moles, era hora do que? De atravessão o costão! Pedras gigantes onde você tem que dar passos idem e tomar cuidado para não cair laáááá no mar. Onde o bombeiro não vai, lembra? (tá, eu sei que era brincadeira, do tipo brincadeira de terror). Mas o visual do costão....  fazia você esquecer tudo isso, porque era lindo DEMAIS.



Uma hora, o costão também acabou. Aí já era a chegada certo? Errado! Aí era a hora de subir escadas! Porque suas pernocas estão ótimas para subir escadarias nesse momento né? Ainda tem um deque de madeira, que tem degraus. Poucos, mas que no km 41 parecem gigantescos. aí finalmente é a praia final, aquela onde tudo começou. E corre pra chegada e para as amigas que estão ali pulando e gritando para você.

Pessoas, é BOM DEMAIS ter um apoio amigo nesse final, faz uma diferença. Você se sente compartilhando a chegada com todo mundo. Ah sim, e também as pessoas amigas gritam e evitam que você passe a chegada, coisa que eu quase fiz. Os tais neurônios meditantes. Aí você passa o portal (no meu caso em 6h39) e o mundo para de girar. Tudo fica em câmera lenta, enquanto você pega medalha, camiseta, frutas, água. E só volta a girar quando você reencontra o povo.

A vida é bela, a prova acabou, aí é só aproveitar o final de semana. Que aliás, deu praia no domingo. Valeu Déia pelos longões, Ari pela dica preciosa do pãozinho, Carlinha e o isopor profissa cheio de bebes na chegada, a dupla campeã-medalha-de-prata Lu & Naomi, Aloysio, Cris que não tava ali mas era como se estivesse, Belô, Eric e galera que deixou essa viagem mais divertida ainda. Todo mundo sofreu, mas ninguém pediu pra sair. Agora, dá licença que eu vou descansar um pouquinho.
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Vai um smoothie aí?


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 28/07/11 às 20:06 na(s) categoria(s) alimentação, dicas, saude
Faz tempo que eu estou querendo falar sobre isso, comidas pré e pós treino. Porque este é um tema que eu A-DO-RO, o que significa que eu desenvolvo quase um TOC --leio MUITO a respeito, participo de listas, falo com pessoas, assino newsletters, leio sites e blogs e principalmente, testo tudo em mim mesma. Então aí vai um aviso para o povo que adora ler o post até o fim e depois reclamar que era chato e irrelevante e que não devia ter lido até o fim: cuidado! Esse post vai ser sobre alimentação! Arght! Fuja para as montanhas enquanto é tempo! Não vai se distrair e ler até o fim einh?

Agora quem ficou é porque está afins de falar do assunto, certo? Certo. Então senta ai e pega um smoothie. Um o que? Um smoothie (ou izmútchi se formos na linha escreve-como-se-lê) é um misto de vitamina, suco e mix de vegetais. E não, não é a nossa tradicional vitamina só que em inglês. Porque a vitamina é uma mistura de frutas e só --já no smoothie vai o que seu conhecimento alimentar e criatividade mandarem. Aliás, nas padarias aqui do lado, se vc quer um mero iogurte na vitamina tem que pedir vitamina-com-iogurte, ou seja, é um extra.

O que eu não sabia quando comecei a correr é que o smoothie é super amigo dos corredores. Aliás, dos praticantes de atividade física em geral. Para começar, ele é de fácil digestão, porque é quase líquido. Quase porque a regra nº 1 de um smoothie é que ele tem que segurar um canudo de pé. Se vc coloca o canudinho no meio e ele cai para a borda do copo está líquido demais e não é smoothie.

Segundo, você consegue colocar quase qualquer alimento ali e deixar gostoso. Legumes, verduras, folhas, frutas, sementes, pós.. É só misturar com frutas que vc adora. Fica ÓTEMO. Mesmo.



O terceiro ponto é que adotar o hábito de 1 smoothie diário é uma ótima (e gostosa) forma de comer bem e se preparar para os treinos. Porque a fórmula básica do bom senso alimentar (e da maior parte dos nutricionistas que não são voltados a esporte e performance) costuma não ser suficiente para quem treina forte. E quando vc não está comendo tudo o que seu corpo precisa e continua correndo e exigindo mais e mais, o resultado é um ou mais dos sintomas a seguir:
  • Fraqueza durante treinos ou provas
  • Sensação de falta de explosão durante os tiros (treinos de velocidade)
  • Uma preguiça e uma falta de vontade de treinar que não passam
  • Ataques de fome que vc não tinha antes, resultando em vc engordar mesmo treinando pra caramba

Já faz algum tempo que adotei os smoothies como café da manhã em dia de semana. Eu deixo os super cafés da manhã com direito a ovo mexido, pão e opções mil para os finais de semana. Outro bom momento para o smoothie é antes ou logo depois dos treinos (tipo até 30 min depois), porque alimenta e não pesa tanto quanto um sandubão.  Mas atenção: se vc não está acostumado a comer frutas, fibras e afins, começa tomando em momentos tranquilos, tipo a tarde, para acostumar, que seu estômago pode estranhar no começo. E antes dos longões (acima de 1h15 de treino) é melhor comer algo com mais carbo e menos fibras.

Agora, smoothie não é um tipo de remédio, é quase uma arte. Porque o smoothie perfeito não demora nada, mas exige ter algum conhecimento do que vc está jogando no liquidificador. Uma boa fórmula de smoothie, na minha não muito humilde opinião, é uma que leve:
  • 1 fruta doce picada que vc adore (ex: banana, manga, tâmara, amora etc)
  • 1 fruta ou legume complementar picada (que pode mas não precisa ser doce, tipo morango, abacaxi, beterraba, cenoura, pessego, uva etc)
  • 1 copo de líquido (suco de laranja, água de coco, chá verde gelado ou água mesmo)
  • 1 colher de sopa de sementes, de preferência moídas ou trituradas na hora, não compre em pó (linhaça, gergelim, girassol etc)
  • 1 colher de sopa de nozes ou castanhas ou amêndoas etc picadas
  • SEMI OPCIONAL: 1 proteína (1 copo de iogurte ou 2 medidas de proteína em pó --eu não gosto de whey protein, mas se vc gosta, se joga! tem as sem ser de leite também)
  • OPCIONAL: 1 folha crua, para os momentos em que vc pode dar um up nas fibras (1 folha de couve manteiga, hortelã, salsinha, espinafre etc)
  • OPCIONAL: pós tipo spirulina, pó de açaí, pó de maca, chia, chlorella, pó de guaraná etc 
  • OPCIONAL: para dar um saborzinho diferente: pimenta fresca picada ou sumo de limão

Ah sim, e um liquidificador. Se pareceu complicado, respira fundo porque não é. E tem formas de facilitar sua vida e a preparação levar cerca de 2 minutos, 5 se for contar o tempo de lavar os copos. Por exemplo: já deixa as sementes misturadas e prontas num potinho. Idem para as castanhas e afins. As folhas ficam melhores frescas, mas na falta de tempo pode bater todas antes com água e congelar em forminhas de gelo, aí é só jogar o gelo no liquidificador. Também pode picar e congelar as frutas num ziplock.

Para completar, arruma uns copos bonitinhos e canudos coloridos, que a apresentação faz diferença. E vai provando, que a prática leva a perfeição!

Receitinha amiga da Corredora Zen :-) - Smoothie apimentado de manga

  • manga Palmer picada
  • banana prata picada
  • 1 copo de suco de laranja
  • castanha de caju + nozes picadas
  • mix de sementes
  • 1 colher de sopa de pó de fibra de maracujá
  • pimenta dedo de moça picada e sem sementes (se não gostar de apimentado coloque menos e sempre sem sementes)
  • suco de 1 limão
  • iogurte
É claro que o smoothie é só um pedacinho de comer bem para treinar bem, mas é um bom começo. Ah, e quem gosta do assunto, vale a pena ver uns posts antigos mas super atuais sobre o assunto tipo ESSE e ESSE aQUI.

Divirta-se criando o seu e, se ficar bom mezzzz manda a receita pra mim, combinado?
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Fãs de treino longo, quase um clube


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 14/07/11 às 14:43 na(s) categoria(s) dicas, historias de corrida
Pessoas, estou Naqueles Dias. Não não, nada a ver com ciclos femininos. Estou falando dos famosos Dias de Pico dos Treinos Longos. Aqueles finais de semana que sempre começam com 10K na 6ªf + longão no sábado. E aí vc começa a somar: 10K + 25K, 10K + 28K, 10K + 32K... e por aí vai. Neste momento já estou descendo a pirâmide, ou seja, os treinos baixando --só alegria!

Mas sempre que eu começo a entrar nesse ciclo, acontece meio que a mesma coisa. Tem o dia em que vc realiza que a sua meta --no meu caso o K42 de Bombinhas-- ficou real e que os treinos começaram.

Para mim e para a Déia, minha super-amiga-e-companheira-fiel-de-treino-casca-dura, o acorda pra vida aconteceu numa 2ªf a noite, no treino mais céu & inferno da semana, ou seja, o treino de tiro. O detalhe é que no dia anterior, domingão, havíamos feito o treino de 25K correndo na Maratona de SP (que teve opção 25K). O que significa que não corremos exatamente em "ritmo de treino", porque tem aquela máxima sapientíssima que diz que treino é treino e prova é prova!

Pós prova, tomando uma água e papeando com os amigos que estavam no mesmo barco, falamos do treino do dia seguinte. "Ah, vamos só girar, treino levinho", disse a Re, que só pode ter sido subornada para dizer isso. Como  depois de correr muito vc não raciocina muito bem, acreditamos. Chegamos na 2ªf  tranquilas. Cansadas mas certas de que seria um treininho light. Doce ilusão. Depois de passadas as baterias de tiros, íamos argumentar que "ontem corremos prova" e conversa mole do gênero quando a Cris deu aquela olhada congelante e soltou "Vcs estão treinando para Bombinhas, que girar que nada, treino normal! Se estiver muito cansada faz firme". Firme, sei.. E foi nesse momento que realizamos: começou mesmo!

Quebrado esse lacre de que sim, começou tudo de novo e agora os volumes só vão crescer e crescer, fiquei feliz. É, feliz. Porque a verdade é que eu ADORO um treino longo. Aquilo que é um sofrimento e uma chatice para muita gente, para mim é um treino que eu me sinto em casa. Tanto que os treinos, para mim, são uma entidade separada da prova, que normalmente é o que está te levando para aquele treino.  Durante os treinos, raramente penso na prova. Os treinos são completos em si mesmos.

Claro que agora que eu estou velha e chata, tenho direito a ter dois critérios básicos para o longão ser bom mesmo. E o 1º e mais essencial é: ter companhia. Porque correr 32K sozinha é chaaaaaaaato. E demoooooooora pra sempre. Não que não dê para ser feliz correndo sozinho, mas o fato é que (boa) companhia vicia. Você acostuma de ter alguém para bater um papo naquela hora em que está pegando, além da vantagem que em grupo ou dupla, a pessoa nunca está cansada no mesmo momento que vc, então dá para uma puxar a outra quando bate algum desânimo. Mas não vai escolher alguém que sai voando e vc nunca mais vê ou que fica laáááá pra trás, seja razoável, corra com quem tem a mesma toada que vc!

O 2º ponto é onde correr. Porque ficar dando um zilhão de voltas no Ibira só para gente insanamente corajosa como a Lu e o Aloyisio. Eu não tenho essa fibra não, se começar a repetir muito o percurso me dá um bode master. Nessa hora, o melhor é apelar para trilhas e pirambas. Mesmo quando não dá para sair de SP, tem muuuuita trilha boa dentro da cidade, com pirambas que não fazem feio de jeito nenhum: Pico do Jaraguá, Parque da Cantareira, Aldeia da Serra, Reflora.. Fora a possibilidade de vc pegar uma manhã ensolarada e simplesmente sair correndo pela rua e conhecer a cidade de outro jeito, mesclando ruas com parques, asfalto com terra.



Mas vc sabe como reconhecer um colega que é do Quase Clube dos Fãs de Treino Longo? É só observar aquela pessoa que começa o treino meio sofrida, com aquela cara de "será que vai dar?" e que pena nos primeiros quilometros. Até que, depois dos 10K, algo acontece. Essa mesma pessoa vai se animando, sorrindo mais, apertando o passo e fazendo cara de "agora sim! podia correr por horas desse jeito". E normalmente corre mesmo.

É um quase clube bacana esse. Não tem inscrição nem mensalidade nem estatuto. Pode tudo. Pode comer castanhas e tâmaras e energy balls ou gel e gomas e cápsulas de sal. Pode correr com tênis minimalista ou o último lançamento carésimo. Pode ser rápido ou lento. Dar passinho ou passadão. Ouvir música ou não. Bater papo ou ficar calado. A única coisa que importa é correr muito por muito tempo --e se divertir no processo.

O resto? O resto não importa.
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Corra da sujeira!


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 13/06/11 às 14:28 na(s) categoria(s) fail, historias de corrida, provas
Semana passada estava eu, feliz e faceira, navegando pelo FB (FB=Facebook) quando me deparei com umas fotos que tiraram completamente meu bom-humor. Antes que vocês pensem alguma bobagem, deixa eu contar logo: eram fotos de uma praia. Vazia. Suja.



Não era um vazamento de petróleo. Nem um lançamento clandestino de dejetos químicos ou radioativos. Era o dia seguinte de uma prova de corrida. Na ressaca do pós-prova, a areia coalhada de copinhos plásticos. As fotos do desastre são do Kadu Mattar, que gentilmente cedeu as imagens p/ publicação neste blog e conta que este foi o visual do day after da prova de revezamento Bertioga-Maresias.

Fiquei chocada. Acima de tudo, me senti ingênua e meio burra. Sabe aquela sensação de criança quando descobre que Papai Noel não existe? Um misto de espanto-raiva-ressentimento-vergonha. Porque eu realmente achava que fazia parte da organização de qualquer prova recolher todo o lixo deixado pela corrida.



Mas antes de começar a atirar pedras e copinhos plástico na organização da Bertioga-Maresias ou jogar garrafas nos corredores e pedir o fim das provas de rua, trilha e montanha, vamos fazer diferente? Vamos mudar essa foto. Como? Falando sobre o assunto, divulgando, checando com as organizações das provas e principalmente sendo mais conscientes como corredores --pq também é fácil jogar toda a culpa na organização né?

Eu acredito na máxima Gentileza Gera Gentileza. Assim como tenho certeza que Intolerância Gera Intolerância, então só reclamar, xingar muito no Twitter e no Face ou desejar que todos os corredores virem praticantes de tênis de mesa ou curling só vai gerar mais respostas negativas e provavelmente nenhuma mudança bacana.

Então, ao invés de começarmos uma caça às bruxas da corrida, vamos dar uma olhada no quadro todo. Eu, como sempre, só posso falar da minha experiência pessoal, mas a verdade é que a corrida vem crescendo cada vez mais e as provas não vão diminuir em número, ao contrário. Fora do Brasil, elas estão muito mais maduras e essa parte da limpeza é levada bem a sério.

Nas provas que corri, vi várias formas de lidar com a questão da sujeira gerada pela corrida. Já corri prova de trilha onde a organização pediu para que todos jogassem os copinhos vazios no meio fio da estrada de terra. Explicaram que era inviável colocar latas de lixo ao longo de todas as trilhas (e latas de lixo em nº suficiente, pq 1 lata enche rapidíssimo), então preferiram colocar os PCs de água em estradão de terra e ao final da prova passar um arrastão da limpeza fazendo pente fino. Pediram que as pessoas guardassem os sachês vazios de gel e que jogassem fora nos pCs (onde tinha lixo) ou no final da prova. Essa eu tive oportunidade de ver depois e cumpriram a palavra, não vi 1 copinho esquecido.

Quando a prova é de longa distância -- tipo 50K ou mais -- especialmente se for prova de montanha onde até nos 21K é praxe correr de mochila de hidratação, o que meio que resolve o problema. Com mochila não existe essa de copinho, a não ser que vc pare e beba nos PCs (quando existem) onde a idéia é mesmo fazer um pit stop e reabastecer. Mas se tem PC em corrida de montanha (como tem nas prova do circuito North Face Endurance Challenge) tem lixo lá. E eles avisam que quem for flagrado jogando um papelzinho sequer no chão é desclassificado na hora.

Aliás, já li isso no race book de provas brazucas também, o problema é que aqui tem essa maledeta mentalidade do "se dar bem as custas de alguém", sendo o alguém no caso o meio ambiente. Aqui tem espertoman em todo lugar, até nas provas de corrida, que se acha o máximo porque não foi pego fazendo algo errado.

Quando a prova é de revezamento e tem carro de apoio (que apóia mesmo), fica mais fácil. Porque aí as águas e isotônicos podem ficar em garrafinhas dentro do carro ou carros de apoio. Para quem nunca viveu a situação funciona assim: o corredor da vez corre e, em algum momento pré-combinado do percurso o carro de apoio tá ali, alguém do apoio sair correndo com as garrafinhas, corre ao lado do corredor enquanto este bebe, pega as garrafinhas e volta para o carro. O único rastro que fica é o suor dos corredores no chão.

Tem provas que são tão preocupadas com isso, como o Columbia Cruce de los Andes por exemplo, que nem levar gel em sachê pode. Porque eles sabem que em todo lugar tem um espertoman. Gel, só se estiver naquela garrafinha própria. E ai de você se começar a jogar embalagem de comida ou suplemento no chão.

Já para provas mais curtas, acho que tem que rolar uma logística mais pesada da organização. Porque não faz muito sentido vc correr uma meia maratona ou maratona de rua de mochila. Tem corredores super conscientes que correm com pochetes e saquinhos, mas eu não acho muito realista querer obrigar todos a correr com copos vazios -- com embalagem de gel usada acho que até dá, mas copos, duvi-de-o-dó.

Assim como esperar que em prova de trilha tenha 6 latas de lixo no meio da single track a cada km. Então qual a solução? A primeira chama-se logística. E serve tanto para a organização quanto para os corredores. Porque nenhum PC está onde está por acaso, tem que levar uma série de coisas em consideração, tipo como os equipamentos vão chegar até o PC, distância etc etc --incluíndo o lixo.

A segunda chama-se autoconsciência. E significa seguir alguns passos básicos e acima de tudo, usar aquele nosso amigo esquecido, o bom senso:

1) Guardar a embalagem do gel ou comida no bolso, mesmo que melecada, se não tiver um lixo perto na hora que vc consumí-la. Sem nojinho minha gente!

2) Ler o regulamento/race book e, se não tiver nada lá a respeito e tiver postos de água e isotônico, perguntar como é o esquema de descarte dos copinhos e a limpeza posterior.

3) Se ver alguém tacando lixo no chão, dê um toque. Mas um toque NA BOA, nada de fazer um discurso ecochato ou se achar no direito de ser grosseiro. Lembre: gentileza gera gentileza, grosseria gera grosseria. Se o meliante for um spertoman sem noção, amaldiçoe mentalmente, deseje que a pessoa entre em combustão espontânea e seja um Ser Superior: recolha vc o lixinho.

4) Converse com outros corredores sobre o assunto. Acredite, muita gente NUNCApensou sobre isso, o que é muito diferente de fazer de propósito.

5) Não vire Fiscal da Vida Alheia, que é MUITO MALA e não conscientiza ninguém. Compartilhe com quem está de ouvidos e mente abertos, faça sua parte, reclame quando for o caso e seja feliz.

Que venham mais provas - com consciência e sem sujeira!


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