Carlão e Geo ostentam os troféus de premiação da prova
Foto: Arquivo Pessoal
Confira o relato do cadeirante Carlos Oliveira, o Carlão, sobre a atleta Angelina Nascimento, a Geo, que tem muita disposição para competir, mas não consegue apoio para continuar treinando.
No sábado, 29/09, véspera da Meia Maratona Brasken de Revezamento, em Salvador (BA), fui até a sede campestre, linda por sinal, da Brasken, retirar o kit, que é uma sacola com o número, chip e brindes. Foi lá que conheci a Geo, negra de sorriso fácil, atitudes espontâneas e imediatas, que estava junto com o técnico Gilson e me deram carona de volta ao hotel, tempo suficiente para trocarmos uma longa e prazerosa conversa.
Conversamos basicamente sobre esporte e pude ouvir os seus lamentos para com a incrível luta que trava para conseguir competir. A situação deplorável do paradesporto brasileiro, isso eu sabia e quanto mais viajo para fora dos centros e até mesmo neles, ouço a mesma lamentação, de que é praticamente impossível treinar e competir sendo cadeirante.
Nos jogos Parapan-americanos do Rio de Janeiro, havia somente duas atletas cadeirantes na prova dos 5000m, representando o México e, ouvindo a Geo, não é difícil deduzir porquê o Brasil não estava representado. O jornal A Tarde de Salvador, no dia 28 de outubro, trazia matéria assinada pelo jornalista Nelson Luís, tendo como case Angelina Nascimento, a Geo, que relatava a sua luta para conseguir se manter correndo em cadeira de rodas. Essa é uma paixão que nem ela explica, face à extrema dificuldade em obter informações, equipamento ideal para a prática esportiva, fundos para viagens e acessórios, somando a isso tudo as vicissitudes diárias.
Seguindo em frente - Nenhum desses percalços tirou a alegria, o bom humor e a beleza dessa negra de 40 anos que parece ter 18 pela vitalidade, disposição e vontade de ir em frente, mesmo contrariando as condições adversas impostas pela vida. Ela segue ditando as normas para conseguir treinar e competir. A matéria relata (mais um) dos casos de abandono de atleta pelos órgãos Municipais, Estaduais e Federais, que deveriam ter o compromisso de fomentar, desenvolver e dar condições de prática desportiva.
A realidade da Geo é a mesma do paradesporto brasileiro, pois não recebem subsídio algum há no mínimo quatro anos, com a implosão da Abradecar (Associação Brasileira de Deporto em Cadeira de Rodas) e a falta de recurso que os atletas cadeirantes sofrem. As verbas da Lei Piva, recursos da arrecadação das loterias que deveria propiciar aos atletas ppd’s a oportunidade da prática esportiva, não chega à base. Nenhum atleta cadeirante em formação recebe qualquer tipo de subsídio para compra e manutenção de equipamentos.
É uma bola de neve, os clubes não têm dinheiro para financiar equipamentos, viagens, etc, os competidores muito menos e os patrocinadores só aparecem quando o atleta já tem algum resultado expressivo. É bastante difícil praticar esporte no Brasil, estando em uma cadeira de rodas.